quarta-feira, janeiro 10, 2007

Benavente antes do Benaventismo

Tenho uma clara costela não-cristão que me impede de dar a outra face a quem me esbofeteia, nem que seja de forma simbólica. E talvez tenha uma costela estalinista (como já notou o PJ), porque não vivo muito bem com os ziguezagues de certas personalidades públicas e políticas que dão o dito por não dito como se fosse o mais natural deste mundo.
Por essas razões, e também por um certo prazer mesquinho pessoal, gosto de comparar o antes e o depois de certas figuras que se passearam pela Educação nacional com o seu durante. Um dos casos que mais me desperta a bílis, já os habituados a este espaço o saberão, é o da ex-Secretária de Estado e actual Comendadora Ana Benavente.
Porque foi uma das promotoras do eduquês, porque foi a alma-mater do Estatuto do Aluno e pela absoluta desresponsabilização dos alunos pela indisciplina e porque também meteu a sua colherada em matéria de facilitismo na avaliação.
Mas o curioso é que, pouco antes de entrar para o Governo, Ana Benavente até escreveu e afirmou coisas sensatas, pedaços de prosa que hoje ainda se lêem com algum interesse e anuência. O que me deixa espantado é porque, quando teve responsabilidades nas mãos, não quis ou não soube fazer melhor ou diferente do que fez.
Mas o melhor é lermos partes de uma sua intervenção numa iniciativa do Conselho Nacional de Educação sobre a avaliação nos Ensinos Básico e Secundário, realizada em Novembro de 1994 sobre a legislação produzida no segundo governo de maioria de Cavaco Silva, com Couto dos Santos na pasata da Educação:
Considero que foi uma decisão política bastante leviana a de avançar com este diploma sem simultaneamente equacionar as exigências (de organização, de meios, de formação) para que a prazo o diploma resultasse, sabendo nós que para isso é preciso muito tempo, continuidade e apoio. Nenhuma destas condições foi reunida.O debate sobre a avaliação tem sido difícil para toda a gente, porque é verdade que há interesses contraditórios entre os pais, também os há entre os professores, e entre os professores e os alunos, e entre os professores e os pais (…).
E a avaliação envolve questões muito concretas de pedagogia e de gestão pedagógica, porque as práticas decorrem em determinados contextos humanos, profissionais e materiais. Há tradições, há rotinas, há o que as pessoas estão habituadas a fazer, aquilo que sempre fizeram e o que para cada um corresponde a modos de estar. Para mudar as práticas, os professores têm de querer, estando convencidos de que aquela proposta é a melhor. Depois, têm de saber como concretizá-la e depois, ainda, têm de poder fazê-lo. São três dimensões complementares. Se os professores não querem porque não estão conquistados para uma proposta, se os professores querendo não sabem ou se querendo e sabendo não podem (condições materiais das escolas, continuidade da relação com os alunos, o tempo e os apoios, psicólogos insuficientes)… Uma coisa é aquilo que formalmente existe e outra é o confronto com a realidade. (intervenção transcrita em A Avaliação dos Alunos da Educação Básica e do Ensino Secundário, 1995, pp. 77-78, os primeiros destaques são da autora e os mais longos são meus)
Uma pessoa lê isto, e aabstraindo-se do conhecimento que agora tem do que se passou na segunda metade dos anos 90, até deseja que a autora pudesse vir a ter responsabilidades governativas, quiçá na área da Educação.
Mas depois, lá está, existe o confronto com a realidade e…
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