sexta-feira, janeiro 26, 2007

Classe média e outros mitos do desemprego tecnológico II

Nessa semana, foi à vez da revista Veja abordar a decadência da classe média. Notamos como de costume, uma distorção completa na abordagem do problema. De novo tudo parece estar circunscrito ao Brasil e a uma “espécie biológica” em particular.

Sobre a questão que abordamos no último texto, onde criticamos artigos da “Folha de São Paulo”, notamos que o problema mais do que evidente da decadência da classe média já não pode mais ser ignorado pelos grandes veículos de comunicação. Tanto que nessa semana, recebeu a atenção da revista “Veja”, como reportagem de capa.

Mas, longe de apontar para a questão real, ou seja o do brutal e irreversível desaparecimento de empregos estáveis, bem remunerados e com benefícios sociais, base da classe média em todo o mundo, a revista também resvala para o já clássico método de estabelecer a “classe média” como uma “espécie biológica” com características próprias.

Nesse ponto o artigo de Veja, intitulado “Congelaram a classe média” (20/12/2006, pág. 60) é exemplar. Há até mesmo uma dupla de fotos do que seria a classe média em 1981 e nos dias de hoje. As fotos da página 66 mostram uma família de quatro pessoas que representariam a “classe média” cercada de seus “objetos de desejo”.

As pessoas e o arranjo de objetos mostrados poderiam ser interpretados como do mesmo tipo que se faz para retratar o “mico-leão-dourado em seu ambiente natural”. Assim, o “espécime de classe média” aparece ao lado do “seu” automóvel, aparelho de TV, som e outros objetos típicos de seu “habitat”.

O artigo de Giuliano Guandalini e Julia Duailibi vai até mais além, cita uma observação de Sigmund Freud, segundo eles “um respeitável integrante da classe média vienense” que teria dito a sua noiva, referindo-se a um grupo de operários, que: “Há uma psicologia do ´povo´ que é bem diferente da nossa”. (pág. 62)

Em outras palavras, o valor do contra-cheque ou do holerite de uma pessoa não tem praticamente nenhuma relação com sua condição de “classe média”. Isso depende apenas de seus hábitos peculiares e até de uma “psicologia” muito especial.

A conclusão é óbvia: Todo o problema da decadência da classe média seria uma espécie de “crise ecológica” muito rara, e circunscrita a esse grupo específico de “espécimes”, e alem disso, só se refere ao Brasil.

Como de costume, são lembrados os problemas típicos de nosso país: Baixo crescimento econômico, altas taxas de juros, gigantesca carga tributária, etc. Portanto nada que o perdulário governo brasileiro não posa resolver com “vontade política”.

O artigo evita cuidadosamente abordar o problema idêntico que ocorre nos Estados Unidos, no Japão e em todos os países da comunidade européia. Nas 9 páginas do texto, o assunto nunca é mencionado. Mas na página 60, se mostra como a classe média cresceu no México, na Índia, na Rússia e na China.

Devemos nos lembrar que nos países desenvolvidos, a ”explicação oficial” sobre a decadência da classe média é justamente o “outsourcing” ou “exportação de empregos” para os mesmos países citados como exemplo de como se deve “criar” classe média.

A propósito, podemos ler no “Der Spiegel” (25/10/2006 – por Gabor Steingart), um artigo com o sugestivo título: “Classe média dos Estados Unidos é o primeiro grupo derrotado pela globalização”:

“No início do século 21, os Estados Unidos ainda são uma superpotência. Mas uma superpotência que enfrenta a concorrência que está além das suas fronteiras, bem como dificuldades internas. As suas classes baixa e média estão se revelando as derrotadas da globalização”.

Sabemos que na Europa, notadamente na França e na Alemanha o mesmo problema é “explicado” pela rigidez das leis trabalhistas que, ao garantir “privilégios”, estariam “inibindo o investimento”. Em outras palavras, a classe média européia, ao defender sua posição, e rejeitar propostas como o “contrato do primeiro emprego” seria ela própria à culpada por sua destruição.

Mas a reportagem de Veja traz uma informação importante sobre um estudo feito por Sérgio Vale, da consultoria MB Associados: “Seu estudo demonstra que, entre 2001 e 2006, a maior expansão na contratação de pessoas com nível universitário se deu na faixa de até três salários mínimos. Enquanto isso, na faixa acima de dez salários mínimos, típica da classe média, houve destruição de vagas”.(Pág. 64)

Considerando que três salários mínimos é o nível onde, segundo os economistas, começa a classe média, podemos concluir que a maioria das pessoas com “nível universitário”, ou seja os filhos da classe média, simplesmente estão “ingressando” nas faixas de “baixa renda”.

De tudo o que vimos, as conclusões que podemos chegar são as seguintes:

1) A classe média dos países ricos estaria desaparecendo na mesma proporção em que cresce nos países exportadores de mão-de-obra barata. Mas trata-se, obviamente, de classes médias muito “menos médias” do que as dos países desenvolvidos.
2) O problema também afeta à classe média brasileira, concentrada nos sudeste do país, onde ficam as nossas “ilhas” de desenvolvimento econômico.

A pergunta que fica sem resposta então é: Onde estão os milhões os empregos em alta tecnologia e em novos ramos de negócios que deveriam surgir, segundo a lógica das revoluções industriais do passado, ou dos “ciclos econômicos” ou ainda da “destruição criativa”?

Não seriam precisamente esses empregos, muito mais sofisticados e “criativos”, que exigiriam muito mais estudos e capacitação, que estariam à disposição da classe média dos países desenvolvidos e das “ilhas de desenvolvimento” no terceiro mundo?

Onde estão esses empregos que insistem em não aparecer? Ou será que nosso velho temor está se realizando: As novas tecnologias e métodos gerenciais estão eliminando empregos numa proporção muito maior do que podem criar?

A decadência da classe média, por todo o mundo, é um sinal claro de que as projeções mais pessimistas estão de fato se concretizando.
http://lauromonteclaro.sites.uol.com.br/

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