segunda-feira, janeiro 22, 2007

Pela Alemanha

Uma amiga da família e antiga vizinha (olá S. se leres isto) viu-se na contingência de, no ano passado, ir trabalhar para uma grande empresa na Alemanha, tendo com ela levado a descendência (na altura com 3 e 6 anos) que passou a frequentar uma escola pública alemã.
Por isso, tenho recebido alguma informação sobre o modo como lá as coisas se processam em matéria de ensino pré-escolar e do correspondente ao nosso primeiro ciclo. Note-se desde já que é uma escola perfeitamente normal, “multicultural” pois tem diversos alunos de origem eslava, turca e agora portuguesa, não sendo um estabelecimento de ensino fora da norma por aquelas paragens ou de “elite”.
As práticas correntes é que são muito diversas, em especial no que se relaciona com o que é exigido em matéria de acompanhamento pelas famílias e com os meios, técnicos e humanos, disponibilizados na própria Escola para despistar e lidar com situações que indiciem dificuldades de aprendizagem, assim como ao nível de toda a envolvência social e laboral das mães trabalhadoras.
Apenas alguns exemplos:
Quando foi detectada uma pequena dificuldade na dicção da criança mais jovem (ainda com menos de 4 anos e lembremo-nos que de origem portuguesa e a dar os primeiros passos no alemão), foi imediatamente facultado o apoio de uma terapeuta da fala.
Para vir de férias a Portugal alguns dias com os filhos, essa nossa amiga necessitou de pedir autorização à Direcção da Escola para o aluno faltar 3 dias e, quando a obteve, foi obrigada a assumir o compromisso de que os miúdos cumpririam fora da escola uma conjunto mínimo de actividades que os impedissem de perder o progresso das aprendizagens realizadas entretanto pela restante turma.
Finalmente, quando a recente tempestade que assolou a Europa do Norte e Central ameaçou passar pelas imediações, a Escola contactou imediatamente os pais para irem buscar os seus educandos (ainda durante a manhã) e nem sequer passou pela cabeça do superior hierárquico da nossa amiga levantar problemas quanto à sua saída do local de trabalho e dispensa da tarde seguinte.
Por cá bem sabemos como tudo se passa. Terapeutas da fala no sistema educativo público só conheci até hoje duas em 20 anos de ensino e numa dezena de estabelecimentos distintos, sendo que uma delas vinha de outra escola para apoiar aquela onde eu leccionava. Em matéria de faltas, pelas nossas bandas, existe maior preocupação com as dos docentes, pois as dos alunos até aos 15 anos não contam praticamente para nada (podem implicar retenção, mas na prática isso quase nunca acontece); na escola onde lecciono o absentismo dos encarregados de educação chegou aos 80% em algumas turmas durante todo o 1º período. Não terá sido apenas desinteresse - embora em bastantes casos seja, pois em muitos casos são pessoas que estão sem emprego ou são domésticas e em outros nem sequer o contacto telefónico tenha sido tentado - mas também os entraves laborais para poderem deslocar-sae à escola em horário útil, mesmo quando as reuniões são feitas às 18.30.
Dir-me-ão alguns que lá estou eu a fazer ressaltar demasiado as características específicas do estar e ser português. Pois estou, pois não adianta “reconfigurarmos” as escolas à moda do norte da Europa ou transformá-las organizacionalmente de acordo com modelos nórdicos se, infelizmente, a proporção de encarregados de educação e alunos portugueses ou já adaptados aos nossos vícios é esmagadora. E se nada é feito para alterar velhas práticas rotineiras.
É uma questão de mentaidades, irresolúvel no curto prazo? Porventura será, mas algum dia isso terá de começar a ser minimament alterado. Ou só os docentes é que têm obrigações em apresentar serviço e assumir responsabilidades pelos resultados da petizada?
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