quinta-feira, janeiro 11, 2007

Perspectivas históricas sobre o desenvolvimento

Transcrição de uma palestra perante o
Boston Meeting of Mass Global Action
No fim­‑de­‑semana de 9­‑10 de Dezembro, houve um encontro, em Cochabamba, Bolívia, dos principais líderes sul­‑americanos. Foi um encontro muito importante. Um indício da sua importância é que não foi noticiado, praticamente não foi noticiado excepto pelos serviços de distribuição electrónica [das agências] de notícias. Assim, todos os editores tinham conhecimento dele. Como suspeito que não leram esse relato electrónico, vou ler algumas coisas dele para indicar porque era tão importante.

Os líderes sul-americanos concordaram em criar uma comissão de alto nível para estudar a ideia de formar uma comunidade continental similar à União Europeia. Eram os presidentes e os enviados das principais nações, e havia a cúpula de dois dias do que foi chamado de Comunidade Sul-Americana de Nações, recebida por Evo Morales, o presidente da Bolívia, em Cochabamba. Os líderes concordaram em formar um grupo de estudo para tratar da possibilidade de criar uma união continental e mesmo um parlamento sul-americano. O resultado, segundo o relatório da AP [Associated Press], deixou o febril presidente da Venezuela, Hugo Chávez, há muito um agitador da região, que está a adquirir um papel maior no palco mundial, contente, mas impaciente. O relato continua dizendo que a discussão sobre a unidade sul-americana continuaria no final deste mês, quando o Mercosul, o bloco comercial sul-americano, tem o seu encontro regular que incluirá líderes do Brasil, Argentina, Venezuela, Paraguai e Uruguai.

Há um – foi um ponto de hostilidade na América do Sul. É entre o Peru e a Venezuela. Mas o artigo aponta que Chávez e o presidente peruano Alan Garcia aproveitaram a cimeira para enterrar o machado, após terem trocado insultos no começo do ano. E esse é o único conflito real na América do Sul no momento. E parece ter­‑se apaziguado.

O novo presidente do Equador, Rafael Correa, propôs uma rota comercial terrestre e fluvial ligando a Floresta Amazónica brasileira à costa do Pacífico equatoriana, sugerindo que, para a América do Sul, essa pode ser algo como uma alternativa ao Canal do Panamá.

Chávez e Morales celebraram um novo projecto conjunto, a fábrica de processamento de gás na região rica em gás da Bolívia. É uma parceria da Petrovesa (PDVSA, Petroleos de Venezuela SA, pronuncia­‑se “pedevesa”), a empresa petrolífera venezuelana, com a empresa estatal de energia da Bolívia. E a coisa prossegue. A Venezuela é o único membro latino-americano da OPEP, e tem de longe as maiores reservas de petróleo comprovadas fora do Médio Oriente, segundo algumas medições, talvez mesmo comparáveis às da Arábia Saudita.

Também houve contribuições construtivas e interessantes de Lula da Silva, o presidente do Brasil, de Michelle Bachelet, do Chile, e outras. Tudo isso é extremamente importante.

É a primeira vez, desde as conquistas espanholas, 500 anos, em que houve movimentos reais no sentido da integração na América do Sul. Os países têm estado muito separados uns dos outros. E a integração vai ser um pré­‑requisito para a independência autêntica. Tem havido tentativas de independência, mas têm sido esmagadas, com frequência muito violentamente, em parte por causa da falta de apoio regional. Como houve pouca cooperação regional, podiam ser combatidos um a um.

É o que tem ocorrido desde a década de 1960. A administração Kennedy orquestrou um golpe no Brasil. Foi o primeiro de uma série de dominós que caíram. Estados de segurança nacional ao estilo neo­‑nazi espalharam­‑se pelo hemisfério. O Chile foi um deles. Depois houve as guerras terroristas de Reagan na década de 1980, as quais devastaram a América Central e o Caribe. Foi a pior praga de repressão na história da América Latina desde as conquistas originais.

Mas a integração estabelece a base para a independência potencial, e isso é de importância extrema. A história colonial da América Latina – Espanha, Europa, Estados Unidos – não apenas dividiu os países uns dos outros, ela também deixou uma divisão interna aguda no interior dos países, de cada um, entre uma pequena elite muito rica e uma enorme massa de pessoas empobrecidas. A correlação racial é muito próxima. Tipicamente, a elite rica era branca, europeia, ocidentalizada; e a massa pobre da população era nativa, indígena, negra, misturada, e assim por diante. É uma correlação razoavelmente próxima, e continua até ao presente.

As elites brancas, na maioria brancas – que dirigiam os países – não estavam integradas, tinham muito poucas relações com os outros países da região. Elas estavam orientadas para o Ocidente. Pode-se ver isso de múltiplas maneiras. Era para onde o capital era exportado. Era onde estavam as suas segundas casas, onde os filhos iam à universidade, onde estavam as suas conexões culturais. E tinham muito pouca responsabilidade nas próprias sociedades. Assim, há uma divisão muito aguda.

Pode-se ver o padrão nas importações. As importações são esmagadoramente artigos de luxo. O desenvolvimento, tal como era, era sobretudo estrangeiro. A América Latina estava muito mais aberta ao investimento estrangeiro do que, digamos, o Leste Asiático. É parte da razão para os seus caminhos de desenvolvimento radicalmente diferentes nas últimas duas décadas.

E, é claro, os elementos da elite foram fortemente simpáticos aos programas neoliberais dos últimos 25 anos, os quais os enriqueceram – destruíram os países, mas enriqueceram­‑nos. A América Latina, mais do que qualquer outra região no mundo, à excepção do sul da África, aderiu rigorosamente ao chamado Consenso de Washington, o qual fora dos Estados Unidos toma o nome dos programas neoliberais dos últimos 25 ou 30 anos. E onde foram rigorosamente aplicados, quase sem excepção, levaram ao desastre. Uma correlação muito marcante. Redução aguda das taxas de crescimento, de outros índices macro­‑económicos, com todos os efeitos sociais concomitantes.

Na verdade, a comparação com o Leste Asiático é bastante impressionante. A América Latina é, potencialmente, uma área muito mais rica. Quer dizer, há um século atrás, era dado como certo que o Brasil seria o que era chamado de “Colosso do Sul”, comparável ao Colosso do Norte. O Haiti, hoje um dos países mais pobres do mundo, era a colónia mais rica do mundo, uma fonte de muita da riqueza da França, hoje devastado, primeiro pela França, depois pelos Estados Unidos. E a Venezuela – riqueza enorme – foi tomada pelos Estados Unidos por volta de 1920, logo no início da era do petróleo. Tinha sido uma dependência inglesa, mas Woodrow Wilson escorraçou os ingleses, reconhecendo que o controle do petróleo iria ser importante, e apoiou um ditador cruel. A coisa prossegue, mais ou menos, desde aquele momento até ao presente. Assim, os recursos e o potencial sempre estiveram lá. Muita riqueza.

Em contraste, o Leste Asiático praticamente não tinha recursos, mas seguiram um caminho de desenvolvimento diferente. Na América Latina, as importações eram artigos de luxo para os ricos. No Leste Asiático, eram bens de capital para o desenvolvimento. Eles tinham programas de desenvolvimento coordenados pelo Estado. Ignoraram quase completamente o Consenso de Washington. Controles de capital, controles sobre a exportação de capital, sociedades bastante igualitárias – autoritárias, por vezes, bastante duras – com programas educacionais, programas de saúde, e assim por diante. Na verdade, eles seguiram boa parte dos caminhos de desenvolvimento dos actuais países ricas, os quais são radicalmente diferentes das regras que estão a ser impostas ao Sul.

E isso tem precedentes históricos. Voltemos ao século 17, quando os centros comercial e industrial do mundo eram a China e a Índia. A expectativa de vida no Japão era maior do que na Europa. A Europa era uma espécie de posto avançado bárbaro, mas tinha vantagens, principalmente em selvajaria. Conquistou o mundo, impôs algo como as regras neoliberais sobre as regiões conquistadas, e, para si mesma, adoptou um proteccionismo muito alto, bastante intervenção estatal, e assim por diante. Assim, a Europa desenvolveu-se.

Os Estados Unidos, como um caso típico, tinha as taxas de importação mais altas do mundo, foi o país mais proteccionista do mundo no período do seu grande desenvolvimento. Na verdade, tão tarde quanto 1950, quando os Estados Unidos tinham literalmente metade da riqueza do mundo, as suas taxas de importação eram mais altas do que as dos países da América Latina hoje, aos quais se ordena que as reduzam.

Intervenção massiva do Estado na economia. Os economistas não falam muito sobre isso, mas a economia corrente nos Estados Unidos apoia-se muito fortemente no sector estatal. É de onde vêm os computadores e a internet, o tráfego aéreo, o transporte de mercadorias, os contentores de navios e assim por diante, quase tudo vem do sector estatal, incluindo fármacos, técnicas de gestão, e assim por diante. Não desenvolverei o tópico, mas há uma forte correlação através da história. Tais são os métodos de desenvolvimento.

Os métodos neoliberais criaram o terceiro mundo, e, nos últimos 30 anos, levaram a desastres na América Latina e no sul da África, os locais que aderiram mais rigorosamente a eles. Mas houve crescimento e desenvolvimento no Leste Asiático, que os ignorou, seguindo, em vez disso, em boa medida o modelo dos actuais países ricos.

Bem, há uma chance de que isso comece a mudar. Há finalmente esforços dentro da América do Sul – infelizmente, não na América Central, a qual foi muito devastada pelo terror principalmente da década de 1980. Mas na América do Sul, da Venezuela à Argentina, encontramos, penso eu, o lugar mais excitante do mundo. Após 500 anos, há um começo de esforços para superar estes enormes problemas. A integração que está a ter lugar é um exemplo.

Há esforços da população indígena. Em alguns países, pela primeira vez em séculos, a população indígena está realmente a começar a ter um papel muito activo nos seus próprios assuntos. Na Bolívia, eles conseguiram tomar o país, controlando os seus recursos. Isso também está a levar a uma democratização significativa, a uma verdadeira democracia, na qual a população participa. Assim, é necessário uma Bolívia – é o país mais pobre da América do Sul (o Haiti é o mais pobre do hemisfério). Teve uma eleição verdadeiramente democrática no ano passado, de um tipo que não se pode imaginar nos Estados Unidos, ou na Europa, já agora. Houve participação popular massiva, e as pessoas sabiam quais eram as questões. As questões eram claras como o cristal e muito importantes. E as pessoas não participaram apenas no dia da eleição. Essas eram as coisas pelas quais elas tinham estado a lutar durante anos. Na verdade, Cochabamba é um símbolo disso.
Noam Chomsky
http://www.infoalternativa.org/autores/chomsky/chomsky031.htm

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