Só hoje acedi a um exemplar do Jornal de Letras, onde no suplemento dedicado à Educação, surge uma entrevista com Valter Lemos, um dos actuais secretários de Estado da dita Educação.
A entrevista é algo surreal em determinadas passagens, quer pela manifesta contradição entre parte do que é dito, quer pela forma algo confusa como são caracterizadas certas fases da evolução do nosso sistema de ensino (é o que se passa com o modo como é caracterizado o 2º CEB), quer ainda - e finalmente - pelo modo estranho como se fundamentam as opções assumidas recentemente em matéria de formação e perfil dos docentes.
Embora toda a entrevista mereça um crivo mais apertado da análise, fiquemo-nos aqui por duas declarações que me deixam estupefacto pela ligeireza com que se assume o desconheciemtno do alcance e impacto destas medidas, aparentemente justificadas apenas pela necessidade de mudar, sem que se perceba se isso é para melhor ou apenas por mudar.
Quem editou a entrevista apercebeu-se da ambiguidade - indefiniçao? puro desconhecimento? - das respostas dadas pelo governante pois até colocou como um dos subtítulos “monodocência ou talvez não”. Quando inquirido sobre as vantagens da estrutura agora proposta, Valter Lemos afirma explicitamente que «não sabemos quais as vantagens da estrutura agora desenhada, que ainda não foi realmente testada em Portugal», limitando-se a acrescentar que «todos os estudos» (quais? os daqueles números que são usados para campanhas mediáticas mas de que ninguém assume a autoria?) apontam para um problema na transiçao do 1º para o 2º CEB.
Mais adiante quando é inquirido sobre as alterações que virão a ser indroduzidas com um modelo de monodocência coadjuvada nos primeiros 6 anos de escolaridade a resposta é absolutamente incrível pois declara que «repare não estou a dizer que esta mudança vá acontecer, mas este tipo de perfis sugere que tal possa acontecer».
Mas afinal no que ficamos? Não se conhecem as consequências, não se sabe se…, não se sabe se pelo contrário. Se a isso acrescentarmos uma quase insanável contradição lógica entre criticar a pluralidade disciplinar no 2º CEB e estar a introduzi-la subrepticiamente no 1º CEB então entramos no domínio da pura navegação à vista, sem um plano de conjunto coerente. Aliás, algumas páginas adiante Sérgio Niza surge num texto a sublinhar esse mesmo fenómeno de «licearização» do 1º CEB, que contradiz tudo o que se afirma para justificar um uniformizador perfil «generalista» dos docentes dos 1º e 2º CEB.
Mas sobre tal contradição e sobre outras passagens sintomáticas de uma visão muito redutora da Educação Básica e, principalmente, de uma atitude claramente adversa dos docentes como profissionais dotados de um saber científico próprio, hei-de deter-me a breve prazo, porque se há coisa pior do que ter de ler posições das quais discordo é lê-las sem que se perceba qual a sua fundamentação ou que lógica argumentativa é usada, para além do lugar-comum.
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