terça-feira, março 20, 2007

Carta Aberta ao General Petraeus

Soube pelo Manchester Guardian, pelo New York Times, pelo Wall Street Journal e pelo Washington Post que o senhor tem umas credenciais académicas e militares impecáveis. Bush nomeou-o "Comandante das Forças Multinacionais no Iraque", e portanto o senhor pode agora implementar as suas tão publicitadas teorias contra-insurreccionais. O senhor é quase meu homónimo – visto que tem uma versão romanizada do meu nome helenizado (Petraeus/Petras). Chamam-lhe um 'guerreiro' ou 'intelectual contra-insurreccional'. Eu possuo credenciais como 'intelectual insurrecto' ou como diz Alex Cockburn 'um membro cinquentenário na luta de classes'. Os seus publicitários classificaram-no como 'a melhor última esperança da América para a salvação (do império) no Iraque'. Previsivelmente os Democratas no Congresso, liderados pelo senador Clinton caíram de joelhos em oração e apoio ao seu profissionalismo e registo de guerra no norte do Iraque. Reconheçamos pois que desfruta de uma vantagem: o apoio de ambos os partidos, da Casa Branca, do Congresso e dos meios de comunicação, mas apesar de eu ser um intelectual insurrecto, não estou convencido de que vá conseguir ter êxito na salvação do Iraque para o império. Pelo contrário; penso que vai fracassar redondamente, porque os seus pressupostos e estratégias militares se baseiam em análises fundamentalmente defeituosas, o que tem profundas consequências militares.

Comecemos pelos seus tão gabados êxitos militares no norte do Iraque – principalmente na província de Nínive. O norte do Iraque, e em especial Nínive, está dominado pelos líderes tribais e militares curdos e pelos chefões partidários. A estabilidade relativa da região pouco ou nada tem a ver com as suas proezas contra-insurreccionais, mas sim com o alto grau da 'independência' ou 'separatismo' curdo na região. Em poucas palavras, as forças militares americanas e israelenses e o apoio financeiro do separatismo curdo criaram um verdadeiro estado curdo independente, um estado baseado numa brutal limpeza étnica de grandes massas de cidadãos turcos e árabes. General Petraeus, quando o senhor autorizou as aspirações irredentistas dos curdos para um 'Curdistão Maior' etnicamente purificado, alargando-se pela Turquia, Irão e Síria, o senhor assegurou a lealdade das milícias curdas e em especial das mortíferas 'forças especiais' Peshmerga eliminando a resistência à ocupação americana em Nínive. Além disso, os Peshmerga forneceram aos EUA unidades especiais para se infiltrarem nos grupos de resistência iraquianos, para provocar disputas intra-comunais através de incidentes de terrorismo contra a população civil. Por outras palavras, o êxito do general Petraeus no norte do Iraque não se vai repetir no resto do Iraque. Na verdade o próprio êxito no fabrico de um Iraque dominado pelos curdos aumentou as hostilidades no resto do país.

A sua teoria de 'defender e manter' o território pressupõe uma força militar fortemente motivada e experiente capaz de resistir à hostilidade de pelo menos oitenta por cento da população colonizada. A verdade é que a moral dos soldados americanos no Iraque e dos que estão mobilizados para serem enviados para o Iraque é muito baixa. As listas dos que estão a tentar sair rapidamente do serviço militar incluem já soldados de carreira e comandantes de baixo escalão – a espinha dorsal das forças militares ( Financial Times, 3-4 de Março de 2007, pág. 2). As ausências não autorizadas (AWOLs) dispararam – 14 mil entre 2000-2005 (FT ibid). Em Março, mais de mil soldados e marines no activo e na reserva entregaram uma petição ao Congresso para a retirada dos EUA do Iraque. A oposição de generais aposentados e no activo à escalada de tropas de Bush repercute-se até aos 'magalas' no terreno, principalmente entre reservistas no activo cujas comissões de serviço no Iraque têm sido alargadas repetidas vezes (os 'destacamentos sub-reptícios'). As prolongadas estadias desmoralizantes ou uma rápida rotação minam qualquer esforço de 'consolidar os laços' entre os oficiais americanos e iraquianos e evidentemente minam grande parte dos esforços para conquistar a confiança da população local. Se as tropas americanas se encontram profundamente perturbadas pela guerra no Iraque e cada vez mais sujeitas à deserção e à desmoralização, o exército mercenário iraquiano ainda é muito menos fiável. Os iraquianos, recrutados com base na fome e no desemprego (provocado pela guerra americana), com laços familiares, étnicos e nacionais a um Iraque livre e independente não constituem soldados fiáveis. Todos os especialistas sérios chegaram à conclusão que as divisões na sociedade iraquiana se reflectem na lealdade dos soldados.

General Petraeus, conte as suas tropas todos os dias, porque vão desaparecer mais uns quantos e talvez no futuro venha a enfrentar um acampamento vazio ou, pior ainda, uma revolta no quartel. As permanentes altas taxas de baixas entre os soldados americanos e civis iraquianos, durante o seu primeiro mês como comandante sugerem que 'manter e defender' Bagdad não conseguiu alterar a situação geral.

Petraeus, o seu 'manual de normas' dá prioridade 'à segurança e à partilha de tarefas como o meio de transferir o poder para os civis e de fomentar a reconciliação nacional'. A 'segurança' é um embuste porque aquilo que o comandante americano considera 'segurança' é o movimento livre de tropas americanas e de colaboradores com base na insegurança da maioria iraquiana colonizada. Estão sujeitos a buscas arbitrárias casa a casa, invasões e humilhantes buscas e detenções. A 'partilha de tarefas' sob um general americano e suas forças militares é um eufemismo para a colaboração iraquiana na 'administração' das suas ordens. 'Partilha' implica uma relação de poder fortemente assimétrica: os EUA ordenam e os iraquianos obedecem. Os EUA definem a 'tarefa' de denunciar os insurrectos e pressupõe-se que a população forneça 'informações' sobre as suas famílias, amigos e compatriotas, por outras palavras, que denunciem a sua própria gente. É mais fácil pôr em prática no seu manual do que no terreno.

'Transferir o poder para os civis', conforme defende, pressupõe que aqueles que 'transferem o poder' cedem o poder aos 'outros'. Por outras palavras, as forças militares americanas cedem o território, a segurança, a gestão e distribuição dos recursos financeiros a uma população colonizada. Mas é precisamente essa população que protege e apoia os insurrectos e se opõe à ocupação americana e ao seu regime fantoche. Pelo contrário, comandante, o que o senhor realmente pretende é 'transferir o poder' para uma pequena minoria de civis que são colaboradores voluntários de um exército ocupante. A minoria civil a quem o senhor 'transfere o poder' vai precisar de forte protecção militar americana para resistir à retaliação. Até agora nada disto aconteceu: não foi delegado um verdadeiro poder aos colaboradores civis locais e aqueles que o receberam estão mortos, escondidos ou fugiram.

Petraeus, o seu objectivo de 'reconciliação nacional' pressupõe que o Iraque existe como uma nação soberana e livre. Isto é uma pré-condição para a reconciliação entre os partidos em guerra. Mas a colonização dos EUA no Iraque é uma negação grosseira das condições para a reconciliação. Só quando o Iraque se libertar de si, comandante Petraeus, do seu exército e dos ditames da Casa Branca, é que as facções em guerra podem negociar e procurar a 'conciliação'. Só os grupos políticos que assentam na soberania popular iraquiana podem fazer parte desse processo. De outro modo, aquilo de que o senhor está a falar é da imposição militar de 'reconciliação' entre grupos colaboracionistas em guerra sem qualquer legitimidade entre o eleitorado iraquiano.

A antiga admiradora de Clinton, Sarah Sewall (ex-vice-secretária adjunta da Defesa e 'especialista de assuntos estrangeiros' com assento em Harvard) ficou empolgada com a sua nomeação. Afirma que 'um rácio inadequado de tropas para a tarefa' pode minar a sua estratégia ( Guardian, 6.Março.2007). O 'rácio de tropas para a tarefa' constitui toda a base da 'crítica' dos senadores Democratas Hilary Clinton e Charles Schumers quanto à política do Iraque de Bush. A solução deles é 'enviar mais tropas'. Este argumento implica uma questão: um número inadequado de tropas reflecte a solidez da oposição popular à ocupação americana. A necessidade de melhorar o 'rácio' (maior número de tropas) deve-se ao nível de oposição das massas e está directamente relacionada com o crescente apoio local à resistência iraquiana. Se a maioria da população e a resistência não se opusessem aos exércitos imperialistas, então qualquer rácio seria adequado – limitando-se a poucas centenas de soldados passeando na Zona Verde, na embaixada americana ou nalguns bordéis locais.

As prescrições do seu manual lembram fortemente a era da Guerra do Vietname, em especial a doutrina contra-insurreccional do general Creighton Abrams, 'Limpar e Manter'. Abrams deu ordens para uma enorme campanha de guerra química que aspergiu milhares de hectares com o mortífero 'Agente Laranja' para 'limpar' terreno de batalha. Aprovou o Plano Fénix – o assassinato sistemático de 25 mil líderes camponeses para 'limpar' os insurrectos locais. Abrams implementou o programa de 'aldeias estratégicas', a reinstalação forçada de milhões de camponeses vietnamitas em campos de concentração. No final, os planos de Abrams para 'limpar e manter' fracassaram porque todas essas medidas alargaram e reforçaram a hostilidade popular e aumentaram o número de recrutas para o exército de libertação nacional vietnamita.

Petraeus, o senhor está a seguir a doutrina de Abrams. O bombardeamento em grande escala de zonas sunitas densamente povoadas ocorreu entre 5 a 7 de Março (2007); as detenções em massa de líderes locais suspeitos são acompanhadas pelo apertado cerco militar de bairros inteiros enquanto as buscas abusivas casa a casa transformam Bagdad num enorme campo de concentração. Tal como o seu antecessor, general Creighton Abrams, o senhor pretende destruir Bagdad para o salvar. Na verdade a sua política é simplesmente punir os civis e aprofundar a hostilidade da população de Bagdad, enquanto os insurrectos se misturam com a população ou nas províncias vizinhas de Al-Anbar, Diyala, e Salah e Din. Petraeus, o senhor esquece-se que pode 'manter' um povo refém com veículos blindados mas não pode governar com espingardas. O fracasso do general Creighton Abrams não se deveu à falta de 'vontade política' nos EUA, como ele se queixou, mas ao facto de que a 'limpeza' de uma região é temporária, porque a insurreição assenta na sua capacidade de se misturar com a população.

Os seus pressupostos fundamentais (e falsos) são que o 'povo' e os 'insurrectos' são dois grupos distintos e opostos, que as suas forças no terreno e os mercenários iraquianos conseguem distinguir e explorar esta divergência e 'limpar' os insurrectos e 'manter' o povo. A história de quatro anos da invasão, ocupação e guerra imperial americana fornece ampla prova do contrário. Com mais de 140 mil efectivos americanos, cerca de 200 mil iraquianos e mais de 50 mil mercenários estrangeiros incapazes de derrotar a insurreição durante quatro anos inteiros de guerra colonial, as evidências indicam um forte, extensivo e continuado apoio civil à insurreição. A alta taxa de mortes, tanto de civis como insurrectos, pelas forças combinadas americanos-mercenários indica que as suas próprias tropas não têm sido capazes de distinguir (nem estão interessadas na diferença) entre civis e insurrectos. A insurreição vai buscar um forte apoio às ligações familiares alargadas, aos amigos e vizinhos da região, aos líderes religiosos, aos nacionalistas e patriotas: estes laços primários, secundários e terciários unem a insurreição à população numa forma que não pode ser imitada pelos militares americanos nem pelos seus políticos fantoches.

General, o senhor já reconheceu, passado apenas um mês como comandante, que o seu plano para 'proteger e dar segurança à população civil' está a fracassar. Enquanto inunda as ruas de Bagdad com veículos blindados, reconhece que as 'forças anti-governamentais… se estão a reagrupar a norte da capital'. O senhor está condenado a fazer o papel a que o vice-general Robert Gaid chamava pouco poeticamente 'dar com o martelo na toupeira: os insurrectos podem ser suprimidos numa área mas vão reaparecer noutro local qualquer'.

É uma presunção, general, partir do princípio de que a população civil iraquiana não sabe que as forças de 'operações especiais' da Ocupação, com quem o senhor está intimamente ligado, são responsáveis por grande parte do conflito étnico-religioso. O repórter de investigação Max Fuller na sua análise detalhada de documentos, sublinha que a grande maioria das atrocidades… atribuídas às 'vis' milícias xiitas ou sunitas "foram de facto obra de comandos de 'forças especiais' controladas pelo governo, treinadas pelos americanos, 'aconselhadas' por americanos e chefiadas principalmente por antigos agentes da CIA" (Chris Floyd 'Ulster on the Euphrates: The Anglo-American Dirty War', www.truthout.org/docs.2006/021307J.sthml ). A sua tentativa para jogar ao 'Bom Polícia/Mau Polícia' com o objectivo de 'dividir para reinar' não correu bem, nem vai correr bem agora.

O senhor reconheceu o contexto político mais geral da guerra! "Não há solução militar para um problema como este no Iraque, para a insurreição… No Iraque, é necessária a acção militar para ajudar a melhorar a segurança… mas é insuficiente. É preciso haver um aspecto político" (BBC, 8.Março.2007). No entanto o 'aspecto político' chave, como lhe chama, é a redução e não a escalada das tropas americanas, o fim dos intermináveis assaltos aos bairros civis, o termo das operações especiais e dos assassínios destinados a fomentar o conflito étnico-religioso e, acima de tudo, um calendário para a retirada das tropas americanas e o desmantelamento da cadeia de bases militares americanas. General Petraeus, o senhor não está disposto nem está em posição de implementar ou traçar o contexto político apropriado para acabar com o conflito. A sua referência à "necessidade de entrar em conversações com alguns grupos de insurrectos" vai cair em orelhas moucas, ou será vista como a continuação da táctica de dividir para reinar (ou 'salame'), que até agora não tem conseguido atrair nenhum sector da insurreição. Contrariamente às suas impecáveis credenciais académicas de contra-insurreição de Princeton/West Point, o senhor é principalmente um estratega, hábil na técnica, mas bastante medíocre na compreensão do enquadramento político de 'descolonização' em que a sua táctica poderia funcionar.

Comandante Petraeus, o senhor é rápido a aperceber-se da dificuldade da sua missão colonial. Passado apenas um mês após assumir o comando, já está a assumir o mesmo discurso de sofisma e duplicidade de qualquer coronel 'bush'. Para manter o fluxo de fundos e tropas de Washington, fala da "diminuição de mortes e do descontentamento em Bagdad", omitindo habilidosamente o aumento de mortes de civis e de americanos noutras áreas. Refere-se 'a alguns sinais encorajadores' mas também reconhece que é 'demasiado cedo para discernir tendências significativas' (Ajazeera, 8.Março.2007). Por outras palavras os 'sinais encorajadores' não têm significado!

Já se atribuiu uma missão sem prazo certo, alargando o prazo da instauração da segurança em Bagdad de dias e semanas para 'meses' (e mais ainda?). Não será uma forma encapotada de preparar os políticos americanos para uma guerra prolongada – com poucos resultados possíveis? Não se pode levar a mal que um guerreiro filósofo tente salvar a pele na expectativa do fracasso.

General, tenho a certeza de que, como intelectual militar, leu '1984' de George Orwell visto que o senhor é muito fluente na fala dúplice. Dum só fôlego fala em que "não há necessidade imediata de pedir mais tropas americanas para o Iraque" (para além dos 21 500 a caminho). Por outro lado pede uma polícia extra de 2 200 efectivos para lidar com o próximo encarceramento maciço de civis suspeitos de Bagdad.

Numa 'fala honesta', no tempo presente, acerca do número de tropas para a sua guerra, o senhor prepara o terreno para uma escalada ainda maior no próximo futuro. "Neste momento não lobrigamos outras necessidades (de tropas). Isso não quer dizer que qualquer missão ou tarefa que surjam não o venha a exigir, e se isso acontecer então pedi-lo-emos" (AlJazeera, 8.Março.2007). Primeiro há uma 'emergência' depois há uma 'missão que surge' e, antes de darmos por isso, há mais cinquenta mil efectivos no terreno e no triturador de carne que é o Iraque.

Pois é, general, o senhor é um hábil mestre da 'fala dúplice' – mas além do mais, o senhor e os seus colegas na Casa Branca e no Congresso estão condenados a percorrer a mesma estrada de derrota político-militar que os vossos antecessores na Indochina. A sua polícia militar pode encarcerar milhares de civis e mesmo muitos mais. Eles serão interrogados, torturados e alguns podem vir a ser 'rachados'. Mas muitos mais ocuparão os lugares deles. A sua política de segurança através da intimidação apenas se 'manterá' enquanto os carros blindados em cada bairro apontarem os seus canhões para todos os edifícios. Mas durante quanto tempo pode aguentar isso? Logo que se movimentar, os insurrectos voltarão: podem continuar durante meses e anos porque é ali que vivem e trabalham. O senhor não. O senhor chefia um dispendioso exército colonial, que sofre baixas sem parar. Mais cedo ou mais tarde, a gente da sua terra obrigá-lo-á a ir-se embora.

As suas ambições, general Petraeus, excedem as suas capacidades. É melhor começar a preparar o seu adeus às armas e a cobiçar um posto mais alto em Washington. Lembre-se que as suas probabilidades são fracas: só são eleitos presidente generais vencedores ou quem conseguiu escapar ao serviço militar. Há sempre um lugar de professor na Escola Kennedy em Harvard para o 'intelectual guerreiro' que é bom com livros mas um fracasso no terreno.
James Petras
http://resistir.info/

Sem comentários: