Recentemente, o Jónatas Machado escreveu neste blog um longo comentário onde volta a insistir que «a convicção acerca da verdade da teoria da evolução é uma consequência inescapável da filosofia naturalista que lhe serve de base, independentemente de qualquer investigação científica.». E colocou o comentário três vezes, em três posts diferentes. Eu já achava que os argumentos criacionistas eram repetitivos. Agora nem sei o que dizer...
Mas uma coisa é certa. Uma ideia errada continua errada por muito copy-paste que lhe façam. E a convicção da verdade da teoria da evolução, ou da ciência em geral, fundamenta-se na concordância entre modelos e observações. A crença dualista que divide o universo em natural e sobrenatural não tem nada a ver com o assunto. Infelizmente, esta crença está tão enraizada na nossa cultura que muitos assumem-na implicitamente. No Conta Natura, o Santiago escreve (1):
«... parapsicologia não é Ciência e não aceito nenhuma definição de "Ciência" que não exclua a parapsicologia! A razão para este meu "preconceito" é bem simples de explicar: A parapsicologia (e disciplinas afins) invocam causas não-naturais (ie: Que não explicam em termos de interacções entre matéria e energia).»
Concordo que a parapsicologia não é ciência, mas discordo da razão. A explicação de observações por interacções entre matéria e energia é apenas uma parte do modelo que temos agora. Se o universo fosse outro poderíamos ter outras explicações, fruto do mesmo método científico, mas sem matéria nem energia como as consideramos agora. No século XVIII o calórico foi proposto para explicar o calor, um fluido invisível e sem massa que permeava toda a matéria. Claramente «sobrenatural», pela definição do Santiago. Mas era uma hipótese científica, rejeitada por não ser compatível com as observações.
Mas vou explicar como eu delimito a ciência, e porque concordo que se exclua a parapsicologia. Consideremos estas três hipóteses:
A- Um deus sobrenatural magicamente transforma toda a manteiga do meu frigorífico em brócolos, todos os dias, às 10:00 em ponto.
B- Um deus sobrenatural magicamente transforma manteiga em brócolos, mas apenas quando é impossível determinar se isto ocorreu.
C- O Silva transforma manteiga em brócolos, por métodos naturais ainda desconhecidos, mas apenas quando é impossível determinar se isto ocorreu.
A hipótese A é sobrenatural, mas é falsificável, testável, e 100% científica. Observa-se o frigorífico às 10:00. Se a manteiga não se transforma rejeita-se a hipótese. Se se transforma pode haver outra explicação, mas isso é verdade para todas as hipóteses científicas. Podemos refutá-las, mas nunca podemos garantir que não há alternativa melhor. As hipóteses B e C não são científicas porque não há forma de verificar a alegada transformação. Pouco importa que o Silva seja natural.
Até podemos acrescentar à hipótese A um mecanismo sobrenatural: é com a palavra mágica «plinplão» que esse deus transforma manteiga em brócolos. Mais uma hipótese testável e científica. No nosso universo é uma hipótese disparatada, mas apenas porque sabemos que não funciona. Se funcionasse, se dizer «plinplão» transformasse manteiga em brócolos, teríamos que incorpora-la no modelo científico desse universo. E até teria aplicações práticas para quem estivesse de dieta.
Como o Santiago, também considero que a parapsicologia não é ciência. Mas não pelo sobrenatural. Se fosse por isso bastaria dizer que a parapsicologia depende de leis naturais desconhecidas, e lá teria que a aceitar como ciência. Nada disso. O que falta à parapsicologia (e a ovniologia, e à magnetoterapia, e a tantas parvoíces que não alegam nada de sobrenatural) é um conjunto de hipóteses concretas, testáveis, que demonstrem ter valor para explicar e prever as observações. É isso que importa à ciência. «Sobrenatural» nem sequer faz sentido a menos que se assuma alguma forma de dualismo, e nada justifica essa premissa.
1- Santiago, 26-3-07, "The Limits of Science"
Por Ludwig Krippahl
http://ktreta.blogspot.com/
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