«Trata-se de uma verdadeira tragédia nacional», desabafava o candidato de esquerda, Rafael Correa, algumas semanas antes de vencer as eleições presidenciais de 26 de Novembro. Já nem sequer se sabe quantos equatorianos vivem no Equador! No decurso dos últimos vinte anos, cerca de 4 milhões terão deixado o país [1]. E com razão... Perto de 50 por cento da população vegeta na pobreza. As condições de vida foram devastadas pela dolarização, decidida em 2000, a qual, fazendo aumentar os custos de produção locais, destruiu tanto a agricultura como a indústria.
A este quadro junta-se uma dívida externa de 18 mil milhões de dólares, sublinha Rafael Correa. Num país que se situa no quarto lugar entre os produtores de petróleo da região, «por cinco barris de petróleo produzidos, as multinacionais ficam com quatro e deixam um ao país, a mais baixa proporção de toda a América Latina». Sem surpresa, revoltas populares derrubaram três presidentes em dez anos. O país sofreu também a sangria de uma vaga de emigração.
A hemorragia teve início durante a década de 1980, depois de aplicado o modelo neoliberal pela mão do presidente León Febres Cordero. Até 2002, 80 por cento dos que partiam pertenciam aos sectores indígenas e camponeses. A partir de 2003 começam a aventurar-se, sobretudo para a Europa, profissionais qualificados, engenheiros, professores e médicos. Estas pessoas ainda dispõem de salários; os mais pobres não. A arriscada partida é cara. Todos se endividam. Para organizarem o périplo entre o Equador e os Estados Unidos, os coyotes, traficantes de carne humana, exigem 4000 dólares em 2000, 8000 em 2003, entre 10.000 e 12.500 dólares actualmente [2]. Desde o início de 2006, a nova política migratória de Washington e a vigilância da fronteira aumentaram consideravelmente os custos. Face a tamanha procura, apareceram os chulqueros: no quadro de um sistema financeiro ilegal, são eles que emprestam o dinheiro; a juros de 30 ou 40 por cento!
Os coyotes fazem sair os candidatos ao American way of life por mar, até às selvas da América Central, onde então cruzam clandestinamente a fronteira do México, para depois, se tudo correr bem, cruzarem de igual modo a dos Estados Unidos. Menos perigosa e menos cara, a travessia para a Europa não requer senão a falsificação de documentos e autorizações.
Em Espanha vivem actualmente 800.000 equatorianos, 64 por cento dos quais têm entre 15 e 40 anos [3]. Muitos fazem aí jornadas esgotantes de quinze horas de trabalho na apanha de frutos e legumes. Isto porque, para além da necessidade de sobreviverem apenas com salários de miséria, e das remessas que enviam às famílias, é-lhes necessário reembolsar os chulqueros. E a tragédia nunca anda longe. «Uma máfia», testemunha Freddy Cabrera, professor envolvido em educação alternativa, em Riobamba. «No momento do empréstimo, exigem títulos de propriedade da casa, do terreno. Se não começas a pagar, confiscam tas. E se morres ainda é pior. A família vai para a rua».
Vinte e quatro por cento da população equatoriana recebe dinheiro – 1,7 mil milhões de dólares [4] – com proveniência estrangeira. Mas a que preço... Separação dos casais, desestruturação das famílias, diminuição da presença de homens, ocupação dos trabalhos mais duros pelas mulheres. Perda das referências, acrescenta Freddy Cabrera. «As pessoas que partem têm filhos, que não têm qualquer consciência do valor das coisas. Gastam as remessas em roupas, bugigangas electrónicas, em bagatelas, seja no que for». Um forte consumo sem desenvolvimento produtivo. Como será amanhã?
«O último a sair que apague a luz», pode ler se numa parede da terceira cidade do país, Cuenca.
[1] A população está estimada em 13,5 milhões de habitantes.
[2] El universo, Quito, 25 de Junho de 2006.
[3] El País, Madrid, 13 de Agosto de 2006.
[4] Segunda fonte de rendimentos financeiros do país, depois do petróleo (1,9 mil milhões de dólares).
Maurice Lemoine
Le Monde diplomatique
http://www.infoalternativa.org/amlatina/equador008.htm
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