segunda-feira, março 19, 2007

Uma História Única Europeia?

Realmente não há mal que não aconteça à minha pobre disciplina de formação. Não bastavam as patetices internas traduzidas numa bolonhização que tornou o curso de licenciatura em História em algo meramente equiparável à leitura de uma qualquer enciclopédia histórica publicada pelo Correio da Manhã ou em fascículos pela edições Planeta Agostini ou aqueloutra ideia tristonha de passar a formar professores híbridos de História e Geografia inclusivamente para o Ensino Secundário, e agora ainda nos cai em cima mais um daqueles projectos cinzentões e assexuados da União Europeia, destinados a demonstrar que os Europeus são todos muito amigos e cooperantes, neste caso sob a forma de um manual único de História para todos os países que optaram por entrar nesta espécide de europudding.
No início dos anos 90, a ideia já havia aflorado e, embora ainda tivesse sido produzida uma História da Europa (dirigida por Jean Baptiste Duroselle) que fazia os possíveis por esconder que os europeus se andam há 1500 anos - no mínimo - a tentar exterminar-se entre si, a coisa foi fenecendo por ali.
Pelos vistos agora a ideia asinina voltou com a presidência alemã da UE, que até tem um exemplo para mostrar, qualquer coisa congeminada entre franceses e alemães que, pelos protagonistas e atendendo à relação amistosa que mantiveram especialmente entre 1871 e 1945 deve ser coisa linda de morrer. Literalmente.
Mas, pelo que consta, o nosso enviado às conversas preparatórias ou inaugurais, o Secretário de Estado Pedreira que até é originário desta área não tem opinião, porque não foi apresentada uma proposta formal. Aparentemente, esta não-posição deve-se ao facto de perante a evidência de uma tempestade só ser prudente lançar o alerta depois de ouvir o boletim metereológico. A ideia já levou pancada de diversos quadrantes (uma, duas, três vezes, aqui não percebo bem onde o autor quis chegar, e só são poucas as pancadas que não atingirem o alvo). Por isso escuso-me de ir mais além do que sublinhar que não adianta nada andarem a escrever e demonstrar que a História se presta a manipulações e que antigamente era tudo muito mau, porque a História era nacionalista e o manual único de A. G. Mattoso era uma coisa incorrecta de todos os pontos de vista e mais alguns, se depois concordam que a apropriação e manipulação da História aconteçam, exactamente pelos mesmos métodos, só que de sinal político contrário.
Não tenho nada contra um manual deste tipo ser produzido. Tenho tudo contra a ideia de o quererem impor a todos os alunos europeus. Nem vale a pena virem-me com as questões do conteúdo. Se é bom ou mau. Se é politicamente correcto e inócuo do ponto de vista ideológico ou se é parcial e polémico. Se é feito com as melhores das intenções, para ensinar as criancinhas a amar o próximo europeu. Neste caso é mesmo a forma que me arrepia.
Uma História Única? Segundo um Manual Único? E já agora que tal um Fardamento Único? E um Juramento deFidelidade à Europa todas as manhãzinhas, com a petizada e juventude perfiladas?
Não, não, não e mais umas quantas vezes não.
Totalitarismos deste tipo, sejam eles negros, vermelhos, brancos ou cinzentos, dispenso mesmo se forem fornecidos gratuitamente e com capa colorida.
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