quarta-feira, março 26, 2008

O poder dos professores

Quando andava no Liceu, antes de 1974, tive um professor que era, verdadeiramente, uma besta fascista. Quando um dia soubemos que esse professor tinha um filho a quem dava frequentemente sovas de chicote, não nos admirámos: a informação condizia perfeitamente com a personagem.

Pois este senhor tinha uma máxima que nos declamava a cada passo, de dedo em riste: «máxima liberdade, máxima responsabilidade!»

Era mentira. Nas aulas dele não tínhamos liberdade nenhuma. Tínhamos que nos sujeitar a tudo: testes com classificações incompreensíveis que não podiam ser contestadas, castigos sem causa que se visse, notas dadas com o claro intuito de prejudicar os alunos de quem ele não gostava.

Uma besta fascista, como escrevi acima.

Um dia, depois de lhe ouvir pela enésima vez a máxima sobre a liberdade e a responsabilidade, levantei o braço; e quando o senhor me deu permissão de falar, perguntei: «Desculpe, senhor doutor [naquele tempo não havia setores, havia senhores doutores]. Não será antes 'máxima autoridade, máxima responsabilidade'?»

Fui expulso da sala com falta disciplinar a vermelho, e no fim do período lá tive a competente negativa para me recompensar o atrevimento. Não me queixei a ninguém porque não havia ninguém que me aceitasse a queixa sem me aplicar uma punição ainda mais grave.

A autoridade deste homem não se baseava no respeito que tivesse por nós, que era nenhum; nem no respeito que tivéssemos por ele, que nenhum era; nem em especiais capacidades científicas ou pedagógicas. Era baseada no poder cru e puro de nos aplicar faltas a vermelho (com três reprovava-se), de nos dar as notas que quisesse sem ter que as justificar perante ninguém fora do Conselho de Turma; e era baseada sobretudo no clima de terror que instaurava na sala; no ar que tinha - não sei se o cultivava - de poder partir a qualquer momento para a violência física.

Não quero voltar a esses tempos. Não porque considere que os professores tinham poder a mais, mas porque não eram responsabilizados por ele. Não quero que a autoridade dos professores consista num poder irresponsável. Mas quero que os professores tenham a autoridade que advém, por um lado, do respeito que merecem, e por outro de um poder legítimo e responsável, mas também real e eficaz.
http://legoergosum.blogspot.com/

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