sexta-feira, abril 11, 2008

A redução do poder de compra em Portugal foi maior do que o divulgado porque a inflação estava subestimada

O aumento da taxa de inflação em Portugal tem sido superior ao divulgado pelo Instituto Nacional de Estatística (INE) e pelos órgãos de informação. E isto porque a estrutura das despesas das famílias portuguesas que o INE tem utilizado no Índice de Preços no Consumidor, que era a de 2000, estava desactualizada pois já não correspondia à realidade.

O INE realizou em 2005-2006 um inquérito às despesas das famílias portuguesas. No entanto, ou por razões politicas (os resultados não interessavam ao governo) ou por quaisquer outras razões que nunca explicou, só muito recentemente – 2ª quinzena do mês de Março de 2008 – é que divulgou os resultados obtidos. E como era previsível, os resultados mostraram que a estrutura das despesas das famílias que o INE vinha utilizando para cálculo do Índice de Preços do Consumidor já não correspondia à realidade. As classes de despesas cujos preços têm aumentado mais em Portugal – ex.: despesas de habitação – tinham uma importância (peso) na estrutura das despesas das famílias que era bastante inferior ao verdadeiro. Este facto determinava que o valor mensal do Índice de Preços no Consumidor divulgado pelo INE, que serve para medir a inflação, fosse inferior ao aumento real dos preços em Portugal.

Assim, segundo o Índice de Preços no Consumidor que o INE utilizava, o aumento de preços, entre Fevereiro de 2007 e Fevereiro de 2008 (a chamada variação homóloga da taxa de inflação) foi de 2,86%, enquanto o aumento de preços calculado com base na estruturas das despesas das famílias dos anos 2005-2006 já é de 3,03%.

Se se calcular o aumento dos preços com base na variação média anual dos preços, a diferença é ainda mais clara. Assim, de acordo com o Índice de Preços no Consumidor, que o INE vinha utilizando e cujos resultados divulgava mensalmente, a subida dos preços no último ano foi de 2,5%, enquanto tomando como base a estrutura das despesas das famílias de 2005-2006 o aumento já é de 2,8%. É evidente que quanto maior for o período considerado maior é a diferença. Por ex., entre 2002 e Fevereiro de 2008, os preços aumentaram em Portugal, segundo o INE, cerca de 15,2%, mas se utilizarmos a estrutura das despesas das famílias de 2005-2006 o aumento de preços já rondará os 17,3%, ou seja, mais 13,8%. Portanto, no período 2002-2008, o efeito da mudança da estrutura das despesas das famílias (substituição da estrutura de despesas de 2000, que o INE utilizava e que estava desactualizada, pela estrutura de despesas de 2005-2006, que está mais de acordo com a realidade); repetindo, o efeito desta simples mudança determina que a taxa de inflação em Portugal seja superior, em media e por ano, em mais 0,365 pontos percentuais ao valor que o INE divulgava.

Se considerarmos o período 2005-2008, a taxa corrigida com base na estrutura das despesas das famílias de 2005-2008 (12,1%) é superior à taxa de inflação divulgada pelo INE (10,8%) em 12%, e à prevista pelo governo para este mesmo período (9%) em 34,4%. É evidente que este facto tem contribuído para reduzir e ocultar a verdadeira dimensão da perda de poder de compra dos trabalhadores portugueses e de outros extractos da população desfavorecidos, como são a esmagadora maioria dos reformados, em Portugal.

Os trabalhadores têm sido “enganados” sistematicamente com as previsões falsas do governo, pois é com base nelas que o governo tem aumentado as remunerações dos trabalhadores da Administração Pública, o que tem contribuído para uma redução muito significativa do seu poder de compra. Mas, para além disso, todas as classes da população que vivem nomeadamente de salários e de pensões têm sido também “enganados” com os valores de aumento da inflação divulgados pelo próprio INE, pois estes valores também não têm traduzido com verdade o aumento real dos preços em Portugal.
Eugénio Rosa

http://resistir.info/e_rosa/inflacao_subestimada.html

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