Não há dúvida que vivemos hoje uma crise alimentar mundial com o disparo brutal do preço dos produtos alimentares básicos. Os países mais pobres, mas também os mais pobres dos países mais ricos, já começam a sentir os efeitos da inflação. E esta alta dos preços, dizem os especialistas, tende a agravar-se e a prolongar se no tempo.
As razões para este aumento são várias e têm pesos diferenciados: desde aos maus anos agrícolas devido a condições climatéricas adversas; às alterações nos padrões de consumo nos países emergentes, aumentando a procura de carne e derivados de produtos animais; ao crescimento populacional; à corrida aos agrocombustíveis que competem com a produção alimentar ou as florestas tropicais; à especulação em torno dos mercados de bens alimentares, a nova commodity financeira; ao elevado preço do petróleo, o que encarece os custos com o transporte e factores de produção agrícola.
Acontece que poucos destes factores são conjunturais:
– as alterações do clima tendem a dificultar as condições de produção agrícola em muitas zonas do planeta, sobretudo nas mais pobres, ou pelo menos a torná-las pouco previsíveis;
– os processos de rápida industrialização tenderão a prosseguir nos grandes países emergentes, transformados nas “fábricas” do mundo, criando uma nova classe de consumo populosa que quer seguir os padrões insustentáveis do 1º mundo ao mesmo tempo que se agravam as desigualdades e a estratificação social interna;
– a aposta nos agrocombustíveis como substituto dos combustíveis fósseis nos países ricos parece ser para continuar, à falta de uma política responsável de alteração do actual paradigma de transporte de mercadorias e pessoas, cujo crescimento no consumo de energia é o que coloca as mais sérias ameaças a quaisquer políticas de redução das emissões de gases de efeito de estufa;
– mais procura e escassez criam oportunidades de negócio nos mercados financeiros especulativos e são eles que fazem rodar a economia;
– o petróleo não vai ficar mais barato e a interdependência das trocas comerciais entre países significa crescentes necessidades de transporte e maior vulnerabilidade perante o mercado internacional.
Ou seja, existe uma causa comum e estrutural para a crise alimentar: o capitalismo globalizado. As alterações do clima são resultado dele; o modelo de rápido crescimento económico e intensa urbanização dos países emergentes reproduz as suas máximas e os seus resultados, os quais já estão bem experimentados; os agrocombustíveis fazem parte do tipo de únicas falsas soluções que conseguem engendrar para enfrentar a crise energética e ambiental; a especulação faz parte da sua lógica própria; a dependência massificada dos combustíveis fósseis resulta da sua irracionalidade de alimentar uma espiral crescente de produtivismo e consumismo.
Mas existe um outro factor bem forte, o qual dá corpo e aprofunda todos os anteriores. A forma como evoluiu a agricultura no mundo desde o capitalismo industrial e, de forma mais aguda, na segunda metade do século XX. A propriedade privada primeiro, o latifúndio depois, seguindo-se a mecanização, os produtos químicos, a monocultura e as culturas para exportação foram alguns dos eixos de revoluções agrícolas que supostamente iriam resolver um dos problemas mais antigos da Humanidade: a fome.
– Uma agricultura cada vez mais industrializada, como se fosse possível impor os ritmos da produção industrial a um sector dependente dos ciclos naturais.
– A progressiva expulsão de pessoas do campo, engrossando o contingente do proletariado que se foi amontoando nas cidades, densificando uma parte do território e desertificando a outra. Isto, mesmo apesar do sucesso da agricultura familiar (devido, por exemplo, à limitação das economias de escala, das tecnologias indivisíveis).
– A perda da soberania alimentar em nome da eficiência das vantagens competitivas e do mercado global que nunca se verificou, nem nos países pobres nem nos países ricos: o fermento da dimensão actual da crise alimentar.
- A perda de autonomia dos agricultores, cada vez mais dependentes de multinacionais para a obtenção de factores de produção, como sementes, materiais de propagação vegetativa e produtos químicos.
– A normalização da agricultura e dos seus produtos, em nome de uma higienização plastificada, a qual não se preocupa com a crescente contaminação química, inclusive com substâncias cancerígenas, e perda de qualidade nutritiva, sabor e aroma dos alimentos.
– A degradação ambiental generalizada que condiciona a capacidade produtiva e deixa um pesado legado para as gerações futuras, com a perda da biodiversidade (em particular a agrícola), contaminação do solo e da água.
Perante a crise alimentar, colocando novamente o espectro da fome generalizada, quase que seria curioso assistir às soluções milagrosas propostas pelo Banco Mundial e o FMI caso elas não fossem tão previsíveis. Afinal, elas são as mesmas de sempre: liberalizar os mercados agrícolas. Isto significa, em particular, concretizar o processo iniciado em Doha pela Organização Mundial do Comércio: retirar os apoios agrícolas nos países ricos e baixar as tarifas alfandegárias globais aos produtos agrícolas e industriais.
Como se isto fosse resolver o problema. Na Europa, por exemplo, foram os apoios directos à produção aos agricultores (através de medidas de suporte dos preços ou subsídios) que permitiram estimular uma agricultura de excedentes e depois foram os apoios indirectos para controlo dos excedentes que permitiram reorientar a agricultura para a articulação das suas várias funções, produtiva, social, ambiental e territorial, evitando o colapso dos campos. Claro que esta é uma visão simplista e muitos erros haveria a apontar à Política Agrícola Comum, mas isso fica para outra altura. Apoiar os agricultores europeus para manter a vida nos campos e assegurar alguma auto-suficiência alimentar não é errado. O mesmo deveria ser apanágio para os países pobres. Errado é a crescente interdependência entre os países em termos alimentares, dependente do ritmo e volatilidade histérica das importações e exportações. É, aliás, irracional. Mesmo noutros aspectos, como no combate à actual crise energética e ambiental.
Há também quem aproveite a crise alimentar para propor uma nova espécie de “Revolução Verde”, introduzindo novas tecnologias de intensificação e generalizando o uso de transgénicos. Mais uma vez é não aprender nada com o passado, é voltar a reproduzir o mesmo tipo de erros. É não perceber que os sistemas agrícolas também são ecossistemas que interagem com os ciclos naturais (água, nutrientes, solo) e o meio envolvente (biodiversidade), ou seja, o seu sucesso mede-se no equilíbrio que conseguir estabelecer nessa interacção. E é não perceber que milhões de pessoas vivem no mundo rural e dele dependem para subsistir, sendo o sucesso da agricultura também medido pelo tipo de viabilidade social que promove: a dependência às empresas capitalistas (ex. patente de sementes) ou a senhorios fundiários rentistas são o garante da expulsão dos campos e condenação da agricultura ao falhanço a prazo.
Rita Calvário
http://infoalternativa.org/ecologia/ecologia083.htm
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