sexta-feira, maio 23, 2008

O primeiro livro de António Aleixo

Acaba de fazer sessenta e cinco anos que o primeiro livro da António Aleixo – Quando Começo a Cantar – começou a ser vendido, pelo próprio, nas ruas e estabelecimentos de Loulé.

Era um domingo. Domingo de Páscoa que, nesse ano de 1943, aconteceu a 25 de Abril, último dia do ano em que pode calhar.

Para o poeta, aquele dia foi também de festa e de ressurreição. Ressurreição da esperança numa vida melhor e numa assistência cuidada para a filha que, em casa, agonizava tuberculosa.

Assim esse livro se vendesse – como se esperava..., e muitas das suas aflições quotidianas poderiam ser ultrapassadas, pelo menos temporariamente, Embora o seu amargo realismo o levasse, depois, a desabafar:

Se o meu livro se consome,
pode-me cobrir de glória;
mas depois a minha história
dirá que morri de fome.

O livrinho, de sessenta e poucas páginas, nascera de uma ideia do dr. Joaquim Magalhães, desde logo acatada pelo autor, e era, mui justamente, dedicado à memória de José Rosa Madeira, o arqueólogo e relojoeiro de Ameixial, estabelecido em Loulé – e entretanto falecido – a quem António Aleixo ficara a dever a sua participação nos Jogos Florais promovidos pelo Ginásio Clube de Faro, em 1937, onde conhecera aquele [1] de quem diria depois:

Por me ver ao abandono,
e ouvindo a minha poesia,
disse-me que eu era dono
de coisas que não sabia.

José Rosa Madeira tinha sido também o primeiro coleccionador de quadras de António Aleixo, e fora ele quem fornecera umas folhas dactilografadas com duas ou três dezenas dessas composições, as quais vieram a constituir o núcleo primitivo do Quando Começo a Cantar.

Este abria com um pequeno prefácio de Joaquim Magalhães, no qual, o já “secretário” do poeta conseguira encaixar a quadra:

Quem nada tem, nada come;
e ao pé de quem tem comer,
se alguém disser que tem fome,
comete um crime sem querer.

– quadra que, prudentemente, não tinha sido inserida no corpo principal; e fechava com outra que, mais tarde, daria o título à Obra Completa do nosso poeta:

ESTE LIVRO QUE VOS DEIXO
E QUE A MINHA ALMA DITOU
VOS DIRÁ COMO O ALEIXO
VIVEU, SENTIU E PENSOU.

Contando com as duas já referidas, o primeiro livro de António Aleixo era constituído por 113 quadras (distribuídas três a três por cada página), quatro quintilhas, cinco sextilhas e duas composições em décimas, subordinadas a motes, sendo o primeiro do próprio Aleixo, dedicado à prisão de Manuel Domingos Louzeiro, o “quadrilheiro” de Salir, capturado, não havia muito tempo:

Já lá vai preso o ladrão
que em toda a parte apar’cia;
contam-se mais de um milhão
de roubos que ele fazia. [2]

O segundo era um mote alheio [3] – «Nunca amanhece em meu peito, / e eu ando nesta cegueira. / Acorda me, ó meu amor, / senão sonho a vida inteira!» – que António Aleixo glosou em quatro décimas, como as demais, de estrutura tradicional, mas onde já utiliza uma linguagem e desenvolve conceitos completamente inusitados em poetas da sua estirpe.

Quando, naquele dia 25 de Abril, o livrinho do poeta-cauteleiro começou a circular em Loulé, ainda cheirava a tinta do prelo, pois tinha acabado de ser impresso na Tipografia União, de Faro, aos 14 de Abril de 1943.

A edição era do Círculo Cultural do Algarve e custara 1600$00, quantia conseguida graças ao apoio financeiro da Junta de Província, presidida pelo Dr. José do Nascimento, colega do Dr. Joaquim Magalhães, no Liceu de Faro. A tiragem foi de 1100 exemplares.

Contava-se, certamente, com a venda de mil, destinando-se os restantes a ofertas pessoais e à Imprensa. Esta – do Algarve ao Porto, passando pelo Alentejo, Lisboa e Coimbra – não podia ter sido mais prestante do que foi, reconhecendo a qualidade da obra e o mérito do autor, em notas de simpática referência, aliás, mais do que merecidas. Julião Quintinha por exemplo, no Diário do Alentejo, asseverava que (o autor do livro) «era certamente muito mais poeta filosófico que poeta popular» e que no «livro agora editado (…) encontro algumas das mais perfeitas quadras que tenho lido nos últimos tempos».

O livrinho foi assim, desde a primeira hora, um êxito, tanto de crítica, como de público. Em Loulé, onde Aleixo era uma figura popular, admirado e estimado por quase toda a gente, e contava com verdadeiros amigos, as vendas ultrapassaram as expectativas. Em poucos dias, vendeu para cima de 300 exemplares.

O preço de cada um (não impresso na capa) era de 7$50 (sete escudos e cinquenta centavos, ou seja um pouco menos que quatro cêntimos actuais). Mas raros compradores – se é que algum o fez – se limitaram a pagar essa quantia que, diga-se em abono da verdade, naquele tempo não era de pequena monta, pois dava para comprar três pães de quilo e era igual ou superior a metade de um dia de salário dum trabalhador comum.

Dez e vinte escudos foram os valores que a maior parte dos compradores deram pelo livrinho; com 50$00, também alguns pagaram, recusando a demasia…e houve mesmo quem pagasse 100$00 por um exemplar.

Em Faro, foi também António Aleixo quem começou a venda do seu livro, mas só no dia 2 de Maio, ou seja, no domingo seguinte, aquando da inauguração de uma exposição de pintura e desenho de artistas algarvios, no Círculo Cultural do Algarve, onde estava representado outro artista louletano, o arquitecto e caricaturista Manuel Maria Laginha. Mas aí é de registar que os livreiros da cidade – os únicos, além do autor, que se encarregaram da venda do livro – prescindiram da sua comissão, em benefício do poeta, de resto o mais necessitado.

Um mês depois, António Aleixo não cabia em si de contente: «Até me parece que vivo noutro planeta» – declarou numa entrevista. Já tinha, entretanto, conseguido vestir os filhos; também conseguira pagar «umas dívidas de aflição – que me pesavam» – segundo disse. Sempre eram «nove bocas lá em casa» e às vezes, «o pão é necessidade que pode mais que o resto». Felizmente «tenho tido amigos que me têm valido» – acrescentou, com visível gratidão. Mas temendo já as consequências de tamanha felicidade, logo acrescentou:

Traz-me num desassossego
o alívio à minha cruz;
ando tal qual o morcego
ao deparar com a luz.

Dois meses bastaram para se esgotar a edição desse primeiro livrinho do popular poeta louletano. E dois anos se passaram até surgir a segunda obra do autor – Intencionais – também editada pelo Círculo Cultural do Algarve, em 1945.

Agora, volvidos sessenta e cinco anos, é de toda a justiça recordar o dia e as circunstâncias em que António Aleixo apresentou na “sua terra” o seu primeiro livro – Quando Começo A Cantar – e lembrar a razão que o poeta apresentou para o título que escolheu:

Quando começo a cantar,
eu bem quisera agradar;
mas nem sempre sou capaz:
só quando o coração canta,
a minha pobre garganta
faz o que nem sempre faz.

[1] Professor Joaquim Magalhães.
[2] Este tema foi depois, no princípio dos anos 70, musicado, cantado e gravado (ainda existem os discos) por dois cantores de intervenção bem conhecidos: José Manuel Osório e Adriano Correia de Oliveira.
[3] Da autoria do poeta algarvio, Victor Castela.
Ezequiel Ferreira
http://www.infoalternativa.org/cultura/cultura053.htm

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