domingo, maio 18, 2008

Os Anarquistas estão chegando

O movimento anarquista manifestou-se desde os primórdios da grande imigração, principalmente sob a inspiração de trabalhadores espanhóis, italianos e portugueses. Os anarquistas, que viam a transformação da sociedade capitalista para a Anarquia através da ação direta dos despossuídos derrubando o Estado e erigindo a nova sociedade; e o sindicalismo revolucionário que tinha no sindicato a sua arma de luta para a também almejada Anarquia da produção independente e das cooperativas, passou a ser a tendência revolucionária hegemônica entre os proletários.



Neste período circularam em todo o país centenas de jornais anarquistas, entre os quais O Amigo do Povo, de Neno Vasco e La Battaglia, de Oreste Ristori. A partir de 1906, A Confedererção Operária Brasileira (COB), liderada por anarquistas, passou a orientar a luta dos trabalhadores, sobrepondo-se às organizações socialistas. O auge de sua influência ocorreu com as grandes greves de 1917 (SP) e 1918-1919 (RJ). Esses anarquistas haviam conquistado uma posição de liderança e mereciam enorme respeito pela firmeza e pela combatividade que demosntravam. Das fileiras do arnarquismo vieram Astrojildo Pereira e outros militantes que, em 1922, fundaram o Partido Comunista do Brasil.

Soneto

Para a anarquia vai à humanidade.
Que da anarquia a humanidade vem!
Vêde como esse ideal de acordo invade
As classes todas pelo mundo além!
Que importa que a fração dos ricos brade
Vendo que a antiga lei não se mantém?
Hão de ruir as muralhas da cidade,
Que não há fortaleza contra o bem.
Façam de ação dos sobversores crime,
Persigam, matem, zombem... tudo em vão:
A idéia, perseguida, é mais sublime.
Pois, nos rudes ataques à opressão,
A cada herói que morra ou desanime
Dezenas de outros bravos surgirão!
José Oiticica (1882 -1957)
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Mundo em Chama
À memória imortal de Miguel Bakunin
Ó deus rubro, ó deus horrível da Anarquia
Moloch anticristão, devorador da terra,
Ó meu único amor, minha grande alegria,
Tu, serena visão para quem não se aterra!
Percebo que um rumor hostil de Rebeldia
Já pela Plebe corre ou já pelo mundo erra;
Sinto que uma revolta olímpica e sombria
Irá estremece o vento, o mar, a serra.
Eia, pois, Pária quero o olhar e ver em chama
Esse universo torpe, esse mundo da lama
Que explora o teu trabalho e explora a tua dor.
E sem ficar tristonha e sem que fique exangue,
Minha alma, que já vive em temerário horror,
Olhará calmamente o vasto mar de sangue!
Otávio Brandão
(1896-1980)

Apesar de Marx ter criticado o anarquismo como sendo uma concepção romântica e uma influência desagregada, que só poderia prejudicar o indispensável e paciente trabalho de organização do proletariado para a revolução socialista, seus seguidores continuam em atividades, pregando e praticando suas concepções anarquistas. Atavés dos movimentos libertários, como tentativa de construção de uma prática política alternativa, hoje um ativo participante para a transformação social.

O anarquismo é um movimento ideológico que nasceu no século XIX, da rejeição à autoridade e exigia de liberdade, que segundo Proudhon (1809-1865), resulta da ação de minorias impulsionando as massas e organizando a produção e o consumo em nome do federalismo. O pensamento anarquista manteve relações complexas com o socialismo de Karl Marx. Mikhail Bakhunin, que, ao lado do fundador da anarquia na Espanha, Guiseppe Fanelli, aderiu à I Internacional, afirmava que "a iguldade deve estabelecer-se no mundo através da organização espontânea do trabalho e da propriedade coletiva pelas associações de produção, livremente organizadas e federalizadas nas comunas". Neste Congresso uniu representantes das diversas tendências do pensamento socialista, mas o teórico que mais se destacou, entre os seus inspiradores, foi o alemão Karl Marx. Assim, desde o início da Internacional, os trabalhadores se dividiram em duas tendências opostas, uma marxista e a outra proudhoniana, em particular, nos congressos de Genebra (1866) e de Lausanne (1867). Mas os anarquistas foram derrotados nos congressos seguintes da I Internacional.

Anarquismo é uma teoria fundada na convicção de que todas as formas de governos interferem injustamente na liberdade individual, e que preconiza a substituição do Estado pela cooperação de grupos associados. Portanto, o anarquismo é uma resistência ou agressão à ordem estabelecida, uma ideologia com um determinado fim, da mesma forma que os comunistas, lutam pelo socialismo seguindo caminhos diferentes. Apesar de vários anarquistas serem contra as idéias dos socialistas utópicos, porque a sociedade utópica é concebida como perfeita, o que cessaria automaticamente de desenvolver-se. Existem vários anarquismos, sendo necessário detectá-los historicamente para compreendê-los, e as correntes mais marcantes no seio do movimento foram: o mutualismo, o coletivismo bakunista, o anarco-comunismo, anarco-sindicalismo e individualismo anarquista, e teve como seus mais significativos líderes os pensadores: Godwin, Striner, Proudhon, Bakunin, Krootkin, Tolstói, Malatesta e Emma Goldman.

O anarquismo teve como seu teórico o russo Mikhail Bakunin (1814-1876), mais violento que Joseph Proudhon (1808-1865), o mais importante de todos os teóricos socialistas anteriores e contemporâneos do marxismo, autor da "Filosofia da Miséria" (1846). De formação hegeliana, mostra em suas obras um ateísmo violento, e ao conhecer suas teorias, Karl Marx (1818-1883) se opondo a ele, acusa-se de não ter "mais que as palavras" da dialética hegeliana. 1846 é o ano da sua ruptura com Proudhon, contra quem escreveu no ano seguinte o livro "Miséria da Filosofia": "O Sr. Poudhon tem a infelicidade de ser singularmente desconhecido na Europa. Em frança, em o direito de ser mau economista, porque passa por ser bom filósofo alemão. Na Alemanha, tem o direito de ser mau filósofo, porque passa por ser um dos melhores economistas franceses. Nós, na nossa qualidade de alemão e de economista ao mesmo tempo, quisemos protestar contra esse duplo erro".

Proudhon foi o primeiro entre os modernos, em usar a palavra anarquia como futura fórmula social, que em gergo pode ser usada para definir desordem na falta de um governo, sem autoridade, sem superiores. O gráfico francês Proudhon proclama que "a propriedade é um roubo", a mãe da tirania" e queria superá-la gradualmente, através de reformas que correspondessem ao "interesse de todos" e "não prejudicassem ninguém". O curioso e instigante Bakunin, filho rebelde de um nobre, crítico apaioxonado da igreja e do Estado, mas também crítico de todo e qualquer autoritarismo exercido em nome da revolução que sempre exaltou o caráter sanguinário da insurreição camponesa, dizia que o Estado era a causa e o compêndio de todos os males sociais, por isto bastaria a Revolução violenta que acabasse com toda autoridade, para que estabelecesse a nova humanidade, discordando de Marx por firmar a necessidade de um estado proletário, depois da Revolução. Seus primeiros representantes eram de todas as escolas revolucionárias, que difundiam suas doutrinas por toda a Europa e mais tarde na América. E seus programas reformadores eram variados, mas todos fundamentados na crença de que uma reforma completa das instituições sociais, capaz de fazer surgir o reinado da justiça absoluta e da completa igualdade, estava próxima e era possível.

A América Latina conheceria os ideais anárquicos no fim do século XIX, por idéias e obras dos imagináveis italianos e espanhóis principalmente. Os primeiros grupos chegaram ao México, Cuba e Argentina no começo de 1870, sendo que estes três países mais Uruguai estiveram presentes no último Congresso Internacional de Saint-Imier, em 1977. Foi no fim do século e no começo do XX, que chegaram vigorosas as aspirações anarquistas no Brasil com Neno Vasco, Gigi Damiani, Oresti Ristori, José Saul e outros. A greve de 1917 foi em grande parte comandada pelos anarquistas e as infinidades de jornais libertários da época atestam a força e a organização alcançada no Brasil. Mas inegavelmente perderiam a influência entre a classe operária brasileira a partir de 1922, com a fundação do Partido Comunista Brasileiro.

No ano de 1946 celebrou-se ainda um congresso anarquista, pretigiado pela geração mais velha, e resistiram dos bravos periódicos anarquistas que havia reaparecido um pouco antes: "Spartacus" (RJ. Dirigido por José Oiticica, Astrojildo Pereira, Salvador Alacid); "Ação Direta" (RJ. dirigido por José Oiticica) e "A Plebe" (SP. dirigido por Edgar Leuenroth foi empastelado a 28 de outubro de 1919). Com o golpe militar de 1964, o que restava do anarquismo praticamente desapareceu, existindo apenas no Rio de Janeiro a editora Mundo Livre que editava anarquistas brasileiros e estrangeiros e na Bahia foi lançado nos anos 70 um jornalzinho bimensal, intitulado O Inimigo do Rei, (dirigido por Ricardo Liper) que é antimonarquista e prega idéias libertárias.

COLÔNIA CECÍLIA - Giovanni Rossi, grande amigo de Carlos Gomes, com quem dialogava sobre música, era sobrinho do professor Lauro Rossi que no Conservatório de Milão descobrira em 1870, o talento do compositor brasileiro, ideólogo anarquista autor de obra em que defendia nova concepção de sociedade. Quando o Imperador Pedro II em sua viagem à Europa para ratamento de saúde teve conhecimento de suas idéias em Milão, e escreveu ao jovem idealista Rossi, oferecendo-lhe a oportunidade de efetivar na prática os seus objetivos e doou 300 alqueires de terra, que seriam ocupados por 250 italianos, situados na região Sul brasileiro, na cidade de Palmeira na Província do Paraná. Os primeiros entendimentos entre o governo brasileiro, representado pelo Code de Mota Maia e Giovanni para a realização de uma experiência anarquista em solo brasileiro, ocorreram em Milão quando já se dera a emancipação dos escravos e o problema da colonização de impunha da falta do braço negro.

Cedida licença para o estabelecimento da Colônia apesar de não terem o título de propriedade da terra, os anarquistas italianos chegam ao Brasil em abril de 1890 e funda a colônia Cecília, modesta experiência de uma sociedade ácrata, sem lei, sem religião e sem propriedade individual. O não reconhecimento pela República da conceção da terra doada pelo Imperador, a incomporeensão de colonos de outras procedências, a fixação de tributos territoriais e as lutas eclodidas no país nesse ano, levaram ao fim do sonho anarquista.

A Colônia Cecília (1890-1894) não foi um fracasso. Se materialmente não atingiu todos os escalões que se exigem de um aglomerado social, serviu pela ação doutrinária e pelo trabalho arregimentador de seus membros, para firmar valores culturais, incrutiu a princípio em poucos, dilatando em seguida seu alcance, o horror ao latifúndio improdutivo. Seu desaparecimento ajudou outras comunidades, outros homens de diversas comunidades, afirmarem valores de civilização. Não importa que muitos fins da Colônia Cecília deixasse de ser alcançados, as lutas sociais por sua natureza dinâmica, sacrificam por vezes florações comunitárias.
Foi nesta região rural, onde homens e mulheres começando o sonho de uma sociedade anarquista, sem desigualdade, sem as regras do mundo capitalista que condenavam. Esta é um pouco de ideal e polenta nos homens e mulheres que com seus atos germinaram, criaram e destruíram essa experiência encompreendida. Um ideal forte, em que o sonho acorda na realidade, o ideal tem que plantar o milho, fazer farinha e dar forma à poleta, porque o sonho a todos pertence, todavia os individuos sempre têm em sua frente o desafio da realização.

Na Colônia Cecíla-anarquista, houve sonhos, dificuldades imensas, alegrias, paixões, traições. O permanente estímilo de seus membros para os debates, para as lutas, à dignificação do trabalho, da solidariedade e da paz, levou-os a dispersarem-se do primitivo núcleo. Em 5 de junho de 1932, Giovanni Rossi publica originalmente na revista "Quaderni della Libertá", editada em São Paulo, um balanço das experiências da Colônia Cecília, onde relata todos os acontecimentos desde sua chegada.

Os intelectuais que atuavam no movimento operário, socialistas ou anarquistas como: Astrojildo Pereira, Evaristo de Morais, Everaldo Dias, Otávio Brandão, José Oiticica, Cristiano Cordeiro, Manoel de Souza Barros e outros, colocaram-se desde o primeiro momento ao lado dos movimentos sociais, e alguns se inspiravam e compunham versos sobre a anarquia. Apesar dos historiadores insistirem em silenciar a Colônia Cecília, tentando anular o valor do núcleo anarquista, constituindo-se num dos episódios menos conhecidos da história brasileira.
Vamos salvar a anarquia!

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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SCHMIDT, Afonso. Colônia Cecília, São Paulo: Brasiliense, 1980.
SOUZA, Newton Stadler. O Anarquismo da Colônia Cecília, Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1970.
ZANATTA, Elaine M./ZANATTA, Marisa/MOURA, Sandra/FRANZONI, Ema. Inventário Analítico do Acervo Otávio Brandão, Campina: Editora da UNICAMP, 1986.
Gilfrancisco Professor

http://www.cinform.com.br/colunistas/index.php?act=leitura&codigo=
13207&colunista=Gilfrancisco

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