terça-feira, setembro 09, 2008

Augusto Santos Silva e a modernidade


Ainda não tinham passado duas horas sobre o discurso de Manuela Ferreira Leite e já Augusto Santos Silva vinha, diligente, “comentar” na TSF a prestação da Presidente do PSD. E lá veio o Ministro com o queixume (já habitual) de ter sido 'um discurso completamente pela negativa', 'um discurso de bota-abaixo e sem qualquer ideia ou proposta nova'. (Horas mais tarde, usou do mesmo tipo de discurso para com o PCP.) A expressão de “discurso de bota-abaixo” como acusação é um excelente exemplo do que é um discurso político reaccionário. Toda a ladainha do ministro é de um recorte profundamente reaccionário. O que está sempre subjacente neste tipo de discurso é a ideia, a imagem do Governo, como uma eterna vítima sacrificada no altar da Nação, que se esforça por todos nós e, para lá disso, tem ainda de arrostar com uma oposição que, note-se a perversão, em vez de o auxiliar (como seria, parece, o seu dever patriótico), o critica, o atrapalha, lhe sabota o trabalho ingente. Pobre Santos Silva, pobre Sócrates, que não podem contar com Manuela Ferreira Leite (ou com Jerónimo de Sousa) – gente muito negativa, já se sabe, que, escândalo dos escândalos, em vez de "propor", socorrer, auxiliar, critica o Governo. Santos Silva, Ministro da Propaganda, sabe muito bem que esta “narrativa” cobarde cala fundo num país de que não se pode dizer que tenha uma grande “vivência” democrática (não meramente formal) nos últimos cem anos...
O sonho deste discurso tipicamente reaccionário é o de ter uma oposição, como eles dizem, "responsável" - quer dizer, uma oposição impotente. Ou mesmo colaborante, cúmplice. Isto é, Augusto Santos Silva, ministro, detentor do Poder, apresentou como limitações do discurso de um partido da oposição precisamente aquilo que é próprio de um partido na oposição. Portanto, Santos Silva não aceita, não admite que um partido na oposição se oponha. E está aqui o traço reaccionário deste discurso de propaganda do Governo PS: está aqui a funcionar, num modo inconspícuo, o desejo, não formalizado, mas vontade de facto, de governar sem oposição, de governar sozinho - isto é, não ser fiscalizado, inquirido, criticado.

Para além disto, como não podia deixar de ser, há uma referência à “modernidade”. Lamenta-se o ministro que Ferreira Leite, coitada, tem uma 'atitude muito avessa à modernidade'. E qual é o melhor sintoma dessa incompreensível disposição da senhora? Ela 'atacou o computador Magalhães'. Sim, leram bem. Manuela Ferreira Leite, sem mostrar a mínima unção pela “modernidade”, 'atacou logo à entrada o computador Magalhães’, o que, prosseguiu desgostoso o moderno ministro, 'revela muito bem qual a posição política de fundo da actual liderança do PSD – é uma posição contra a modernidade.’
Desta forma, o discurso de Santos Silva, não só foi reaccionário, como foi de um ridículo parolo, com esta defesa embasbacada do tal computador Magalhães – esse deus ex machina socratica, em que convergem, a inteligência, o esforço e o futuro da Pátria. Para o sacerdote da “modernidade” Santos Silva, Ferreira Leite cometeu o inaceitável, porque incompreensível (recusa da "modernidade") e criminoso (ousou atacar o Magalhães, ícone da Pátria). O computador português Magalhães, anunciado literalmente com pompa e circunstância, que, afinal, não é nem Magalhães nem português.

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