Há quem justifique a mania de escrever "estado" com maiúscula afirmando que assim se diferencia o "estado" do "estado de coisas". A verdade é que isto não faz sentido, pois se eu iniciar uma frase com "Estado de coisas" terei de escrever "estado" com maiúscula. Além disso, nunca usamos as maiúsculas para diferenciar o banco onde fazemos depósitos do banco onde sentamos o rabo. Por aqui percebemos que o único argumento para usar maiúscula no caso de "estado" é o suposto dever de reverência com a dita entidade. Contudo, nenhum argumento nos obriga a ser reverentes com o estado, porque o mesmo argumento forçar-nos-ia a ser reverentes com os Bancos e com as Bichas.
A pergunta óbvia é a seguinte: se a maiúscula serve para diferenciar, por que raios teria de ser o "estado português" a levar maiúscula e não o "estado de coisas"? Qual o argumento que sustenta essa decisão? Voltamos à mesma: a imposição ideológica de uma atitude reverente. Se usássemos maiúscula para diferenciar "banco" de "banco" por que não seria o banco de sentar o rabo a levar maiúscula? Afinal, seria mais difícil viver sem ter onde sentar o rabo do que viver sem instituições bancárias. Até as últimas reconhecem isto, pois não há sucursal que não tenha bancos para sentar o rabo enquanto se espera. Seria um desconforto inimaginável.
Mas concedamos, mesmo assim, que este uso fazia algum sentido. O que fará o defensor desta prática quando confrontado com palavras ambíguas em que os sentidos possíveis são mais do que dois, como em "estado" e "estado de coisas"? Será que começava a usar maiúsculas nas outras letras da palavra? Por exemplo: "bica" (café), "Bica" (talha) e "bICa" (formato de pão). Por aqui vemos o absurdo desta ideia. A solução racional é obviamente deixar que o contexto desambigue a palavra, que é o que acontece de qualquer maneira, quer usemos ou não maiúsculas.
O mesmo acontece com outra palavra sensível do nosso vocabulário: "deus". Talvez a única razão pela qual "deus" com minúscula não foi simplesmente suprimido do nosso léxico tenha a ver com o facto de ainda falarmos em paganismo e deuses pagãos. Contudo, "deus", como "general", não é um nome próprio. Nomes próprios de deuses são "Javé", "Brama", "Apolo", "Odin", etc. Javé e Odin estão para "deus" como Custer e MacArthur estão para "general". Não é por isso que escrevemos "o General foi a casa" ou "o Carteiro chegou". Maior razão temos para não usar maiúscula quando usamos a palavra de maneira impessoal — "há deus" — pela mesma razão que não escrevemos "está de Chuva" ou "aqui há Gato".
Nesse caso, por que razão escrevemos sempre "deus" com maiúscula excepto quando o contexto é o politeísmo? Afinal, é provável que para um politeísta cada deus individual seja merecedor de reverência pelo menos num grau ainda maior do que o "estado" com E. Haverá algum argumento para restringir o uso da maiúscula aos monoteísmos? Mas isto ilude uma questão mais básica: o tradutor não tem de se pôr no lugar do monoteísta ou do politeísta ou seja de quem for, nem tem de ser reverente para com qualquer deles, do mesmo modo que o leitor. As regras da língua servem para comunicar e não para fazer festas ao ego das pessoas. Será que os editores se sentiriam ameaçados pela indignação de um grupo politeísta que exigisse modificações ortográficas lisonjeadoras dos politeístas? Não, seria absurdo. Do mesmo modo que não escrevemos "músico" com maiúscula para agradar aos melómanos.
Afinal, para um escritor / leitor imparcial, o deus de uma religião monoteísta é apenas mais um deus no panteão mundial de deuses das diversas tradições religiosas, sejam elas tradições com panteões minimalistas ou não. Nem sequer é preciso aceitar o ateísmo para aceitar a racionalidade desta conclusão. Não temos mais argumentos para impor hábitos ortográficos lisonjeadores relativamente ao cristianismo, ao islamismo ou ao judaísmo, do que para qualquer outra tradição religiosa ou laica, ao estado ou aos vendedores de enciclopédias.
Assim sendo, se não escrevemos "Naquela manhã, o Carteiro foi beber a Bica à leitaria perto da sé", por que raios seremos forçados, pelos colegas ou pelos revisores ou pelo público, a fazer com alguns substantivos — o estado, deus, etc — aquilo que os alemães fazem com todos os substantivos?
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