«Para os aristocratas, a filosofia, a história, as referências culturais, etc., não têm qualquer interesse intrínseco, servem apenas para duas coisas: matar o tédio e afirmar o sangue azul. Assim, é tido imediatamente como inferior, plebeu e estúpido alguém dizer kine em fez do correcto cuáine para falar de Quine, ou frêje em vez de frêga para falar de Frege. A própria gramática se altera subtilmente para excluir a plebe e marcar o território das imaginadas superioridades aristocráticas: diz-se “pensar o mundo” em vez de “pensar sobre o mundo”, fala-se do “Outro” em vez do plebeu “outros” ou “outras pessoas”, usa-se mil referências que se sabe que o nosso auditório não domina, só para o impressionar e para marcar a pretensa superioridade.»
«Uma maneira de contrariar esta forma de apropriação da cultura para servir de instrumento de dominação social é tornar os conteúdos acessíveis a todos, democratizá-los, explicá-los claramente e sem ademanes irrelevantes. A primeira reacção do aristocrata a este trabalho é dizer que é redutor. E é. Reduz a filosofia, a história, a física ao que elas mesmas são, e extirpa-as do seu uso instrumental para oprimir socialmente os outros. Os Maias no meu tempo eram ensinados exclusivamente para afirmar a dominação social de uns sobre outros, e para garantir que quem não fosse já iniciado no vocabulário do “Outro” e do “pensar o mundo” se sentisse totalmente deslocado, como um cão vadio num hotel de cinco estrelas, vagamente incómodo mas magnanimamente tolerado pela gerência.»
Desidério Murcho (comentário publicado no De Rerum Natura)
http://vguerreiro.blogs.sapo.pt/
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