sábado, dezembro 20, 2008

As minhas respostas às perguntas feitas pelo jornal Sol

Sol - O recuo em pontos como a ponderação dos resultados escolares dos alunos na avaliação dos professores (até considerada essencial pelo Governo) traduz-se em seu entender numa descaracterização do modelo do Ministério?
Resposta: Não faz qualquer sentido manter a ponderação dos resultados escolares dos alunos na avaliação dos professores por várias razões: só há exames nacionais a Matemática e Português; uma tal ponderação constitui uma pressão inadmissível sobre os professores para atribuírem melhores notas aos alunos; essa ponderação esquece que há razões de ordem social, económica e cultural que condicionam os resultados dos alunos e essas variáveis não são controláveis pelas escolas. O ME só deixou cair a ponderação dos resultados escolares neste ano. O recuo do Governo nesta matéria é meramente instrumental: pretende impor uma avaliação burocrática de desempenho a todo o custo e fá-lo apenas porque quer levantar essa bandeira na campanha eleitoral. O recuo do Governo destina-se apenas a tornar o processo menos pesado. A intenção do Governo é clara: recuperar essa ponderação em 2010 e recuperar o modelo nessa altura.
Sol - O que é que resta desse modelo, depois das simplificações anunciadas para este ano lectivo e da anunciada disponibilidade do Governo para o rever no próximo ano?
Resposta: Resta o essencial: uma avaliação burocrática, que põe os professores a trabalharem para os professores e para os burocratas das DREs. Resta a teimosia em manter uma avaliação feita por pares. Se houvesse intenção de premiar o mérito, a avaliação dos professores seria integrada no processo de avaliação externa das escolas e realizada por entidades exteriores. Não pode haver avaliação de desempenho credível, rigorosa e justa feita por pares. Uma avaliação feita por colegas tem consequências nefastas para o clima da escola e não tem qualquer vantagem. Não é justa nem rigorosa. É apenas burocrática e tem uma consequência terrível: coloca as escolas a trabalharem para os burocratas das DRES e os professores a trabalharem para os professores. 

Sol - Faz sentido, depois destas simplificações e de haver excepções para a avaliação (caso dos professores em condições para pedir a reforma até 2011 e dos professores das áreas técnicas e profissionais), continuar a falar num modelo de avaliação como se ele estivesse intacto?
Resposta: Não faz sentido. Com o simplex2, já só resta uma manta de retalhos, tantas são as emendas e correcções introduzidas. O que resta é um simulacro de avaliação de desempenho, para fins propagandísticos, e que toda a gente sabe que está ferida de parcialidade e injustiças. 

Sol - O anúncio destas situações de excepção para alguns professores, do aumento dos suplementos remuneratórios dos dirigentes escolares e da criação de «alguns milhares de vagas» para professores contratados pode criar divisões entre a classe docente? Será essa a estratégia do Governo?
Resposta: Sem dúvida. Mas a introdução dessas excepções fez aumentar as injustiças criadas pelos remendos introduzidos no modelo de avaliação. A bem dizer, o modelo tal como está morreu. Mas o Governo vai procurar recuperá-lo em 2010, caso o PS vença as eleições legislativas. O que passou a existir foi um conjunto de remendos e enxertos que visam apenas criar a ideia falsa de que vai haver uma avaliação rigorosa dos professores. A avaliação de desempenho criada pelo modelo burocrático e pelos seus remendos não é justa nem rigorosa nem imparcial. É apenas burocrática e consumidora de tempo e de recursos. E é prejudicial para os alunos porque cria um Inferno nas escolas e desvia os professores da sua missão: ensinar. Não é por acaso que mais nenhum país europeu avalia os professores desta maneira.
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