quinta-feira, janeiro 08, 2009

O Estado sou Eu

O Estado sou eu, pareceu dizer José Sócrates nas entrelinhas da sua entrevista à SIC. Para além do que disse, e do que ocultou, o primeiro-ministro demonstrou que apenas lê a cartilha de uma ideologia: a que lhe garante o poder. Sócrates não é o Blair da "terceira via", nem o Gordon Brown que agora diz que ainda bem que acabaram os mercados livres.

Sócrates nunca definiu, até hoje, quais são para si as linhas de equilíbrio entre o Estado e o mercado. Por isso foi intransponível face ao fogo cerrado que os entrevistadores julgaram ser a melhor forma de o interrogar. Não era. Sócrates, remexido e bem preparado, suavizou as relações com Cavaco e preparou o país para o novo Orçamento que há-de vir por aí. A ideologia de Sócrates não é feita de convicções ideológicas (que não fazem parte do seu discurso), mas sim de um pragmatismo acima de qualquer ideia de esquerda ou de direita. Sócrates é o Estado. E o Estado não tem de dizer de que cor é. Por isso, a sua acção é a de gestor dos interesses do Estado e, se acreditarmos, do País. Noutros tempos Sócrates não seria primeiro-ministro: seria o feitor perpétuo da coutada do Estado. Sócrates é uma melancia nascida no jardim de Maquiavel: de todas as cores por fora, desde que o centro seja comestível. Não há idealismo nele. Há populismo puro, sem sombra de ideologia. Pode ser que António Costa lhe arranje um substrato ideológico com a sua moção, mas para defender a sua actuação como pastor do Estado não precisa disso, como se viu na segunda-feira.

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