Caros colegas :
Após largos e intensos meses de lutas e mobilizações sem precedentes, encontro na actual fase, vários colegas que não escondem a sua indecisão e perplexidade sobre se e como deverão continuar a luta.
Com o simplex o ME consegui fazer passar algumas ilusões para o público menos atento e informado: A lei estaria simplificada, melhorada e mais exequível e a opinião pública, que não acompanha a sua aplicação prática, deseja acreditar que tudo isto afinal está perto de acabar bem.
O nosso primeiro objectivo deverá ser a desmontagem cabal, clara e simples das incongruências e inconsistências do simplex. Este trabalho de desmontagem clara e análise crítica da mais recente lei do ME, devia ser no meu modesto entendimento o primeiro da nossa contestação, na actualidade. Sobretudo devia sublinhar-se que esta versão simplex deriva de um ECD, desfigurado pelo ME, que em caso algum os professores concordarão.
Após a publicação desta lei, alguns colegas e a opinião pública carecem de esclarecimentos claros e cabais sobre aquilo para nós está claro - o simplex não satisfaz porque é um simulacro de cedência e uma manta de remendos incoerentemente alinhavados QUE NÃO RESOLVE O ESSENCIAL : a DIVISÃO ARTIFICIAL DA CARREIRA E A PROGRESSÃO SUBORDINADA A COTAS.
Tão importante como dizer que o simplex é mau para a escola pública e deve ser rejeitado é fazer a sua desmontagem peça a peça e explicar claramente as RAZÕES porque o rejeitamos.
A meu ver esse trabalho de esclarecimento não está convenientemente efectuado.
A divulgação da incongruência e da trapalhada do simplex deverá, dirigir-se de forma diferenciada a dois contextos igualmente importantes:
O primeiro contexto é a nossa classe sócio-profissional :
Neste ponto o dia de debate previsto pode ser um trunfo muito importante se for bem aproveitado, mas isso irá requerer muita organização em cada escola.
Os professores têm que ser muito bem esclarecidos sobre o carácter errado e indesejável da versão simplex para poderem dar o passo seguinte que é a não entrega dos seus objectivos individuais. As duas questões estão ligadas: Só tendo claro para cada um de nós que a proposta contida no simplex continua a ser fortemente injusta poderemos boicota-la.
Outro passo indispensável para o êxito do boicote é o esclarecimento generalizado da classe para as consequências da não entrega de objectivos individuais.
Esta forma de expressão da nossa luta é mais difícil de concretizar do que as anteriormente adoptadas pela simples razão de que remete para o foro individual e deixa cada um a sós perante a responsabilidade da sua decisão. Ou se consegue induzir uma grande consciência da situação e convicção, ou irão emergir as dúvidas como é natural e humano.
A organização deste boicote deve merecer um empenhamento profundo de todos nós e de todas nossas estruturas organizativas.
O segundo contexto em que a nossa rejeição do simplex terá que ser divulgado, é junto da comunicação social e da opinião pública.
No diálogo com pessoas de fora do meio escolar, encontro muitas vezes dificuldades no entendimento das nossas razões e das nossas lutas. Há demasiado ruído de fundo e demasiadas mensagens distorcidas emitidas pela comunicação social. Os professores e as suas estruturas organizativas não podem descurar este aspecto : há que ganhar as pessoas para o nosso lado. O governo não pode virar a opinião pública contra os professores e forme juízos errados sobre as nossas lutas. Não vou tão longe ao ponto de dizer que para que tenhamos sucesso na nossa luta a opinião pública tem nos apoiar. Mas precisamos que a maior parte dos nossos concidadãos não esteja contra nós e não compreenda mal os nossos objectivos.
- A rejeição do simplex por parte dos professores não poderá parecer à opinião pública outras coisas às quais facilmente poderá ser colada, tais como :
- Um capricho ou uma birra dos professores; Temos que mostrar que as nossas razões são fortes e justificam largamente a grande luta que vimos desenvolvendo aos logo de todo este tempo.
- Temos que mostrar que as nossas reivindicações não são irrealistas, que estamos a pedir a lua ou que simplesmente não queremos ser avaliados; é importante - por ser verdade e para que tenhamos junto da opinião pública uma legitimidade maior - que não deixemos de expressar o nosso desejo em ser avaliados de uma forma justa, simples e digna.
Outro rótulo que a nossa luta terá sempre de evitar que lhe seja colado, é o e estar a ser guiada por partidos e por interesses ao ensino . Não podemos deixar dúvidas que o que nos move é a nossa dignidade profissional, o superior interesse da escola pública e a qualidade do serviço público que prestamos.
Não estamos a reivindicar dinheiro. Temos tido o cuidado e a consciência profissional de desenvolver a generalidade das nossas acções de luta em prejuízo dos nossos horários lectivos, aos fins de semana, ou ao fim do dia de trabalho. Isto dá-nos argumentos e força moral !
A nossa luta deve preocupar-se em parecer aquilo que de facto é : Uma genuína expressão da indignação dos professores, a quem estão a ser impostas arbitrariamente sucessivas medidas que violam a sua dignidade profissional, pioram a qualidade do serviço que prestamos e colocam em causa a continuação da própria escola pública democrática.
Os professores - que ainda não se expressaram perante a opinião pública e o ME, a seguir à publicação do simplex - devem faze-lo com grande clareza, para que não restem dúvidas que o simplex não passa de um conjunto informe e incoerente de remendos colados sobre uma legislação errada e nociva para as escolas e que por isso não é aceitável.
Teremos oportunidade de dizer isso mesmo, na próxima greve já agendada para dia 19. Mas a greve para surtir todo o efeito, deve ser acompanhada por esclarecimentos aos encarregados de educação e não deve ser entendida por estes como um acto de hostilidade.
Proponho que à semelhança da greve anterior, sejam emitidos e distribuídos aos pais, textos esclarecedores acerca das razões que nos movem para essa forma de luta, que como se sabe tem com efeitos laterais potencialmente anti-populares.
Esta forma de luta, deve dizer-se e ficar claro, não goza da simpatia de muitos professores, pelo que deve ser utilizada com muita ponderação e moderação.
As estruturas sindicais deverão auscultar a classe das mais diversas formas, no sentido de encontrar formas de luta que melhor correspondam ás suas necessidades. O sindicalismo deve actualizar-se e abrir-se a novos métodos, processos e práticas. Devem ser escutados os professores em geral e não somente os activistas mais mobilizados e entusiastas, sob pena de a classe se segmentar - conforme visa a estratégia do governo - devendo todos nós estar conscientes de que só com propostas consensuais se poderão colher maiores adesões.
A constituição da plataforma sindical compreendendo 12 organizações sindicais e as conversações estabelecidas com vários movimentos de professores, foram passos fundamentais para a união da classe que agora se verifica.
Vamos lutar e comunicar constantemente com todos os nossos colegas para consolidar esta unidade que é e será o alicerce da vitória das nossas justas reivindicações!
Pela defesa da escola pública, por um ECD digno, por uma avaliação justa e por uma escola democrática!
Viva a unidade dos professores !
Carlos A. Silva
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