sexta-feira, fevereiro 20, 2009

A Carreira

Aí está a carreira em todo o seu esplendor:

1- Não é necessária qualquer formação especializada para coordenar, supervisionar e avaliar o trabalho científico e pedagógico dos professores.

Há uma espécie de naturalização de uma crença: avaliar professores é o complemento óbvio de avaliar alunos; não é exercitar outra função educativa. O avaliador, por ter avaliado alunos, não precisa de formação especializada para avaliar professores - nascem-lhe competências por geração espontânea. O artigo 56º do ECD - que regulamenta precisamente o exercício de outras funções educativas - exige formação especializada em estabelecimentos do ensino superior para que o professor se qualifique para o exercício de funções no ensino especial, na gestão escolar, até na animação sócio cultural (?) ou na educação de adultos… Mas na supervisão e avaliação de professores…NADA. Vai-se ali ao Centro de Formação fazer uma acção de 25 horas… Consulta-se uma “Equipa de Apoio às Escolas”… E JÁ ESTÁ. Mesmo que os avaliadores “não queiram” são nomeados e até se podem delegar competências que eles próprios não adquiriram.

2- Deriva desta concepção de carreira uma consequência que é, em abstracto, muitíssimo questionável. Tornou-se impossível que o professor possa percorrer a carreira do princípio ao fim dando SÓ aulas (para além da componente de estabelecimento em favor dos alunos), mesmo que sejam aulas excelentes seguidas de resultados excelentes.

Percebo agora que a principal razão que levou muitos titulares, em final de carreira, a anteciparem a condição de aposentados, não foi o cansaço dos alunos nem qualquer receio de planificações e aulas observadas. Tiveram apenas a delicadeza de não nos incomodarem com a sua presença nas nossas salas. Não chegaram a entrar e saíram pela porta grande.

3- E, no entanto, na mesma escola onde faltam competências básicas, sobram competências básicas. Não falo de avaliação de desempenho docente, mas de carreira docente. Milhares de professores nos últimos 10/15 anos, com grande recurso a fundos públicos e da Comunidade Europeia, a título voluntário, concluíram formação especializada/mestrados - no mínimo de 250 horas -, que conduziram ao reconhecimento certificado e, muitos, a graus académicos. Foram reposicionados na carreira. E que mais? Mais nada. Se temos na escola algum colega com formação especializada em desenvolvimento curricular, tem competências a mais, não há espaço nenhum na carreira para que a sua especialidade sirva ao desenvolvimento da escola; se há algum professor com formação em gestão e administração escolar, isso não lhe serve de nada, nem à escola, a não ser que resolva “puxar o tapete” aos colegas que já estão na gestão; e aos professores que têm competências na sua área de especialidade, para que lhes serve isso em termos de carreira?

Conclusões:

Professores a quem a Administração dispensa competências essenciais e a quem impõe uma nova função cujo exercício, pelo menos…, as deviam necessariamente implicar;

Professores que são obrigados por nomeação e delegação de competências a avaliar outros, mesmo que o não queiram, ou não lhes interesse profissional e cientificamente;

Professores que têm competências certificadas para as quais não existe propriamente carreira.

- É uma carreira de caca. E já fede por todo o lado.

Júlio Figueiredo

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