Há uns dias Manuel Morujão, porta voz da Conferência Episcopal Portuguesa (CEP), argumentou que o estado devia combater a crise em vez de dar direitos iguais aos homossexuais (1). Agora diz que o estado deve «encontrar o esquema legal que achar, mas não em detrimento da família e do casamento» e que «Quem propõe isto não quer ameaçar ninguém, mas é uma falácia, é um engano. É acenar com uma bandeira facilitista» (2). Não sei que ideia o senhor padre faz do casamento, mas garanto-lhe que não é a lei que me dissuade de trocar a minha mulher por um barbudo qualquer. Nem me parece que, alterada a lei, ela arranje logo uma namorada. Jeitosa. E bi-sexual. Hmm... Permitir que pessoas do mesmo sexo se casem não prejudica ninguém nem será implementado em detrimento dos casais heterossexuais. Esses continuam a ter os mesmos direitos que têm agora. Não é ameaça nem falácia nem engano. E se é facilitismo facilitar a vida ao discriminado combatendo a discriminação, então viva o facilitismo. Mas Morujão preocupa-se com as gerações vindouras (que por alguma razão, que certamente não tem nada a ver com Freud, estão atrás e não à frente) «O que estamos a dizer às gerações que estão atrás de nós? Que sejam o que quiserem? Que escolham num menu de identidades aquilo que querem ser?».Se a pergunta não fosse retórica a resposta seria sim. Claro. Sejam o que quiserem ser. Certamente que para decidir a nossa própria identidade cada um de nós está mais habilitado do que o pároco. Ou até do que toda a Conferência Episcopal, conferindo e episcopando a vida dos outros. Mas como pergunta retórica parte de um pressuposto errado. Eu sou heterossexual. Sempre fui. Gosto de miúdas. Mas nunca escolhi ser assim. Nunca foi uma opção. Nunca me deparei com alternativas. Ser heterossexual é como ter dois braços e pêlos no nariz. É pior, porque os pêlos ainda os posso cortar. E quem é homossexual também não o é por escolha.“Casamento” tem vários significados, conforme a tradição, religião ou atitude de cada um. E aceito que alguns não queiram mudar o seu conceito de casamento. Mas um dos usos deste termo é técnico e jurídico. E é apenas esse que se quer corrigir, para não discriminar alguns casais em função do sexo. De resto continuam todos livres de entender “casamento” como bem quiserem.A argumentação da CEP contra esta proposta de lei é um disparate pegado. É a crise que não tem nada a ver, são ameaças que não existem e uma antropologia fictícia onde cada um escolhe que sexo prefere. Mas até compreendo que se preocupem tanto com isto. Com isto, e em condenar o sexo fora do casamento, a masturbação, a contracepção e qualquer prática sexual mais imaginativa. Não querem que os jovens seminaristas namorem. Proíbem o casamento e o sexo aos padres. E passam a vida toda de adultos a tentar reprimir os seus impulsos sexuais. Não admira nada que quando chegam a bispos estejam tão obcecados com a vida sexual dos outros. Penso que esta “polémica” desaparecia num instante se deixassem os padres ter namoradas. Ou namorados.* O título era para ser “O que eles querem sei eu.” Mas depois lá vinham os comentários emproados acerca da falta de respeito. Vêm à mesma, mas assim posso dizer que podia ter sido pior...
1- Treta da Semana: A falta de razão de Manuel Morujão.
2- Ecclesia, 10-2-09, Bispos preparam Nota Pastoral sobre o casamento
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