Esta é mais uma daquelas histórias deliciosas de tugas, que bem demonstra o provincianismo e a estupidez instalados no interior do país.
Teve o azar, a esposa do Chico Borja, de ir ao Hospital de Seia por causa de uma dor de cabeça.
Ao saberem que tinha chegado dos EUA, onde o casal reside há anos, uma onda de histeria colectiva se apoderou daquela gente toda, com telefonemas imediatos para as televisões(??), para os jornais e sei lá que mais!
Mandaram chamar uma ambulância (ou se calhar, na ânsia de tanto ligarem para as tvs até se esqueceram disso, vá-se lá saber...), mas como esta nunca mais aparecesse, a senhora não esteve para aturar aquilo por mais tempo e foi calmamente embora para casa.
Ninguém a impediu. Se a senhora estivesse, de facto, infectada teria vindo embora contaminar toda a gente.
O espalhafato de histeria que se seguiu envolveu, para além das TVs, também a GNR e o Tribunal com mandados do Juiz com carácter de urgência...
E a pobre senhora, que teve o azar de ter tido apenas uma dor de cabeça e de se dirigir ao Hospital (afinal já são 2 azares...) perante o aparato policial que lhe bateu à porta foi obrigada a ir, quase algemada, para os HUC...
Mas isto, só horas depois de ter vindo pelo seu próprio pé para casa!
Por acaso, passei à porta dos Borja quando me deslocava para a escola para uma reunião e a senhora estava no quintal, com o marido, a falar com uma outra senhora, aparentemente bem disposta, calma e descontraída.
Entretanto um jornal local na sua edição online atribuía-lhe já o estatuto de "suspeita"... como se de uma criminosa se tratasse!
A senhora foi obrigada pelas autoridades, no meio do maior aparato que já se viu por estas bandas, a seguir para os HUC, onde metade do Hospital deveria já estar à sua espera, a avaliar pelos directos da RTPN e da SIC Notícias.
Aguardam-se os resultados das análises.
No entanto, perante tal onda de histeria colectiva, com toda a gente do Hospital da Guarda a falar avidamente para as televisões e a dizer disparates, apetece-me perguntar:
Quantas pessoas já morreram nos hospitais da Guarda e de Seia desde que esta história do H1N1 tomou conta das notícias?
E de que morreram essas pessoas?
De H1N1? Talvez não.
De certeza que, das centenas de pessoas que morrem todos os dias nos hospitais deste pais, esta gripe H1N1 é a que mata menos.
De facto, matou ZERO até agora. Nada pode matar MENOS do que zero.
Mas este país, neste momento, só se preocupa com esta gripe.
As outras doenças que matam, DE FACTO, dezenas de milhares, por ano - centenas de pessoas por dia - deixaram de ter qualquer relevância social.
Continuam a matar, claro, mas isso não interessa nada. As atenções das autoridades e da população foram com eficácia voltadas EXCLUSIVAMENTE para esta doença da moda.
Este país foi tomado de assalto por uma mentalidade colectiva que presta um permanente e extraordinário culto à estupidez.
As pessoas deixaram de raciocinar, de pensar, de usar a mais preciosa ferramenta que Deus (para os que acreditam nisso) lhes deu.
Abdicam de qualquer nível de raciocínio, dizia, porque valores de estupidez e cretinice sempre mais altos se levantam.
Nas folgas do entretenimento propiciado pelas notícias quotidianas sobre o mega-deus Cristiano Ronaldo, o exemplo a seguir por todos os tugas, temos agora a gripe A.
É preciso trazer permanentemente o povo entretido para que não tenha tempo de pensar na sua triste vida.
Povo entretido é um povo feliz.
Portugal está a ser assolado por uma onda avassaladora de estupidez pura tão grande e generalizada que se torna impossível descrevê-la aqui.
Morrem 3.000 pessoas de constipação NORMAL por ano, em Portugal.
Milhares são contaminados dentro dos hospitais. Mais de 10 mil morrem devido a erros médicos, por ano.
Bactérias hospitalares dizimam velhinhos e só se começa a falar disso ao oitavo.
Tudo é abafado.
Ninguém quer disso saber...
Miúdos apanham gangrena em braços partidos e morrem nos hospitais.
Jovens pedem socorro depois de operações para extracção de um simples nódulo no pescoço e são deixados morrer por asfixia.
Todos nós temos inacreditáveis histórias de negligência passadas em hospitais que vitimaram, ou quase, entes queridos.
O meu pai foi deixado morrer, há 5 anos, no decurso de um episódio que durou 5 dias, por uma médica cardiologista que será finalmente julgada por isso a 6 de Outubro deste ano.
Tiveram 5 dias para o salvar. Ninguém quis saber.
Será agora julgada por negligência e por ter cometido graves erros médicos. Uma especialista! Mas quem é que acredita na justiça, neste país? Tratar-se-á de mais um pro-forma sem consequências.
Quem foi abandonado e deixado a morrer em macas encostadas às paredes dos hospitais teve azar. Nada mais.
Anda a tuguice toda doidinha com a única doença, em Portugal, que ainda não matou ninguém....
Mas vai matar. E muitos. Indirectamente.
Porque enquanto as equipes médicas, os Inems e os parcos recursos que temos forem direccionados primordialmente para o combate a esta gripe, que é a que mata menos de todas, são os restantes doentes deixados à sua sorte.
E por isso muitos morrerão.
Poderemos contabilizá-los como vítimas da gripe H1N1?
Não. Mas deviam ser contabilizadas como as vítimas da estupidez de um povo inteiro cada vez mais confundido e desorientado.
Um povo tão estupidificado ao longo da sua história recente que não tem, de facto, qualquer futuro num mundo a esta velocidade.
Nem com gripe nem sem ela.
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