
Nos tempos que correm, os jornalistas são todos doutores. Os mais “aptos” estão ao serviço das agendas políticas e económicas dos seus patrões. A grande maioria está para o que der e vier... e alguns, poucos, resistem à ideia feita de que receber um ordenado em troca do seu trabalho, inclui a venda da alma.
O trabalho da tal maioria é indigente todo o ano, mas quando, por qualquer razão, a actividade política aperta, como é o caso nas campanhas eleitorais, eles aí estão em todo o seu esplendor!
Enquanto os tais mais “aptos” se concentram no trabalho sujo que requer alguma perícia política, a maioria alastra pelo terreno das televisões e jornais como sacos de plástico no final de uma feira, sujando tudo indiscriminadamente. Alguém lhes meteu na cabeça que para fazerem figura de “independentes”, têm que se multiplicar em reportagens e artiguinhos onde descrevam todos os passos dos políticos, sejam de que quadrante forem, de forma desrespeitosa, escarninha, muitas vezes ofensiva. Alguém lhes meteu na cabeça que para se mostrarem “independentes” têm que se mostrar não contra este ou aquele político, mas contra todos... e se possível, mesmo contra a política em geral.
Se um candidato, de qualquer partido, fala de um tema que possa parecer sério, logo se apressam a fixar um qualquer pormenor anedótico do dia, da assistência, da roupa. Como “doutores” que são, a ignorância e analfabetismo das pessoas que vão encontrando pelo país, é sempre um prato forte que adoram e servem até à indigestão a todos os telespectadores ou leitores, ao mesmo tempo que ignoram arrogantemente os reais problemas dessas mesmas pessoas.
Assim, rapidamente, todos os assuntos ficam reduzidos a umas “bocas” típicas de conversa de tasca, onde “eles são todos iguais”, onde “eles querem é poleiro”, onde, como à boa maneira fascista, “a minha política é trabalhar”.
Não tendo sequer noção dos efeitos do seu “trabalho jornalístico”, dada a ignorância de dimensões verdadeiramente bíblicas de que são possuidores, são na verdade os mais perigosos para a democracia. Transformam tudo o que tocam em lixo, afastam da participação política milhares e milhares de pessoas.
Como disse (lá longe!) ao princípio, alguns poucos resistem, em nome de um jornalismo digno, em nome da liberdade, em nome do futuro, em nome de uma profissão que pode ser um grande serviço público.
Quanto tempo levará até que voltem a entrar nas redacções dos jornais, revistas e televisões, verdadeiros jornalistas, talvez com menos destes inúteis “doutoramentos”, mas com muito mais cultura, personalidade, formação cívica, convicções e talento?
Adenda: Não, não me esqueci de que talvez o mais importante seja libertar os órgãos de informação das garras de muitos dos que os detêm... ou talvez mais importante ainda, fazer o que estiver ao nosso alcance para voltar a ter mais media que não esteja nessas mãos. Claro que não me esqueci! Isso está na base de tudo!
http://samuel-cantigueiro.blogspot.com/
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