sábado, maio 23, 2009

A militância política dos meios de comunicação

Foi muito esclarecedora uma reportagem do dia 13 de Maio no El País sobre as publicidades elaboradas pelos canais de televisão espanhóis Cuatro e Tele5 para defender as marcas frente aos produtos de marca branca. A primeira coisa a destacar é que não se trata de publicidade elaborada e paga pelas firmas comerciais, mas de produção dos próprios canais de televisão e emitida por sua conta. Os textos dos anúncios são os seguintes: «Acaso se pode imaginar um mundo sem identidade? A marca é identidade, diversidade, cor. A marca é liberdade» (Tele5) e «Vivemos um presente escuro, mas temos esperança. Sentimos paixão pelo que fazemos e o céu continua a ser azul. Não fiques em branco e continua a escolher as marcas nas quais confias» (Cuatro).

Mas o que mais me impressionou é que o diário não duvida em considerar que ambos os anúncios «propõem estimular o consumo inteligente de uma perspectiva quase pedagógica, motivando a reflexão entre os telespectadores». De modo que considerar o culto à marca comercial símbolo de “identidade”, “diversidade”, “liberdade” e “esperança” – e, atenção, que «o céu continua a ser azul» – é “inteligente”, “pedagógico” e “reflexivo”.

É importante insistir que se trata de uma publicidade dos próprios canais de televisão a favor das firmas comerciais, o que mostra o seu claro compromisso com um determinado modelo económico. Para não haver dúvidas, o porta-voz da Sogecable, a empresa da Cuatro, afirma que «o canal assume essas ideias porque somos fiéis escudeiros das nossas marcas e o conceito de marca branca está imbuído de certa agressão». É toda uma declaração de princípios que mostra a parcialidade dos meios de comunicação privados e a sua clara militância política a favor de um modelo político e económico. São “escudeiros” do capitalismo e até a mera presença de produtos sem firma comercial é considerada por eles uma “agressão”. Impossível esperar portanto uma pluralidade ou neutralidade mínimas para acolher propostas ou iniciativas confrontadas ao modelo económico dominante.

E, como se fosse pouco, na mesma reportagem é recordado como um dos canais, o Cuatro, destacava num gráfico de barras a percentagem da sua audiência que pertence ao leque denominado “target comercial”. Trata-se do termo da mercadotecnia que é utilizado para referir o sector da população com maior capacidade económica, prioritário para todos os tipos de publicidade pelo seu alto poder aquisitivo [1]. São – cito textualmente a doutrina dos especialistas – as «pessoas de 13 a 54 anos, sem incluir a classe baixa, que vivem em povoações com mais de 10.000 habitantes». É este o seu peculiar conceito da democracia, que passa por eliminar as crianças que ainda não manuseiam dinheiro, os pobres, os idosos e os que vivem em zonas rurais. Arrepiante.

http://infoalternativa.org/spip.php?article906

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