A história da pirataria é, como qualquer outro campo, uma área em que múltiplas visões se confrontam. Se a imagem geral que temos dos piratas é a de grupos de homens cruéis, sem princípios e dedicados a pilhar a riqueza dos outros e a causar o terror, a verdade é que este é um ponto de vista muito particular e que, dentro desta história, há outras menos contadas. Daniel Defoe (autor do célebre Robinson Crusoé) foi, na sua História Geral dos mais Famosos Piratas, um dos divulgadores da experiência da Libertalia, uma sociedade utópica fundada por piratas em Madagáscar, sociedade onde a propriedade tinha sido abolida, os recursos postos em comum e onde se falaria, inclusivamente, uma língua nova criada por eles. Seria uma experiência curta, liderada pelo capitão Missone e o seu cúmplice italiano Caraccioli, que não se sabe se deve mais à realidade ou à pluma de Defoe, mas que em todo o caso apresenta uma outra versão da dissidência pirata e dos seus valores libertários, que a miopia do olhar dominante da época só conseguia apreender como “deboche”.
Ao contrário dos navios dos corsários, pagos pelos Estados e pelos seus reis para pilhar navios de outros Estados na sua disputa pela hegemonia comercial e económica, os piratas não roubavam às colónias para enriquecer as metrópoles. E se os navios dos corsários eram movidos pela força de escravos (negros e índios) que viviam nas galés, consta que nos navios piratas não havia escravos, mas negros livres, índios e pessoas de várias nações, que regra geral se organizavam por princípios igualitários – e por isso mesmo um ataque pirata era visto, para negros e índios escravizados, como a possibilidade da sua libertação.
Percebemos assim como há, também hoje, uma disputa pelo sentido das palavras. Onde uns falam em roubo de mercadorias e espoliação, outros defendem a partilha e a apropriação. Onde uns fazem comércio e servem de intermediários, outros falam em intercâmbio. E não deixa de ser curioso que algumas destas discussões estejam a surgir novamente. Nomeadamente, a propósito do novo poder pirata que emergiu, através do Partido Pirata sueco, nestas eleições europeias, em que conseguiu uma percentagem de 7,1% e dois mandatos no Parlamento Europeu.
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