A SUA TRANSFORMAÇÃO SOCIAL EM DINÂMICA DUMA ORDEM IDEO-REALISTA
Todo o pensamento verdadeiro... se apresenta numa ocasião e em dois momentos. Sendo cada um destes momentos a negação do outro...
Resulta que a antinomia é a própria lei da vida e do progresso, o princípio do movimento... a vida indestrutlvel da humanidade.
Na economia social... se uma das forças antagonistas for entravada, porque a actividade individual sucumbe sob a autoridade social, a organização degenera... Se pelo contrário, a iniciativa individual falha como contrapeso, o organismo colectivo corrompe-se.
A antinomia é o principio... do movimento, a razão do equilíbrio... Vem em seguida a lei de progressão e de série...
Suprimam a antinomia, e o progresso dos seres torna-se inexplicável - pois onde está a força que produziria esse progresso? Eliminem a série, o mundo não será mais do que uma contenda de oposição estéril, uma ebulição... sem objectivo e sem ideia... Deste modo a sociedade estabelece-se pouco a apouco por uma espécie de oscilação. (Contr. Écon., Cap. XIV.)
Na sua marcha oseilatória, a sociedade balanceia-se... sobre ela própria. A marcha consiste por assim dizer neste balanceamento alternativo sobre os dois pés,... assim é a sociedade. (Carnets, 4 de Set. de 1846.)
A igualdade não surge, na sociedade, como um nlvel inflexível. É, como todas as grandes leis da natureza, um ponto abstracto, para cá e para lá do qual o facto oscila sem cessar, descrevendo arcos maiores ou menores, mais ou menos regulares... A igualdade... é a média duma infinidade de equações... (Contr. Écon., cap. XIV.)
A. Do antagonismo à competição antinómica
Trata-se de saber se todas essas espontaneidades, de que se compõe a criação, se conciliam ou se combatem... enfim se a ordem... não é antes um efeito do equilíbrio entre forças antagónicas. No que se refere a mim, a minha opinião é insuspeita: o que torna a sociedade possível é, a meus olhos, a mesma coisa que torna a, liberdade possível: a oposição das forças. (Justice, conscience et liberté.)
Há, no conflito... uma força organizadora...(Justice, Les Idées.)
Este termo contradição não deve tomar-se no sentido vulgar dum homem que diz e depois se desdiz - trata-se duma oposição inerente a todos os elementos e a todas as forças que constituem a sociedade, e que faz com que esses elementos e essas forças se combatem destruir-se-iam, se o homem, pela sua razão, não encontrasse o meio de os compreender, de os governar e de os manter em equillbrio. (Lettre à Char, 24 de Agosto de 1856.)
Há, por parte da humanidade, a tendência, não para uma extinção, mas para uma transformação do antagonismo, a que se convencionou chamar, desde o princípio, a paz...
A guerra e a paz são duas forças diferentes dum único e mesmo movimento, duma única e mesma o antagonismo.
Resta-nos tomar um único partido... organizar com base noutros dados o antagonismo humanitário... uma paz emuladora, em que as forças ao combaterem-se se reproduzem... (La Guerre et la Paix, concl.)
O erro dos juristas, com respeito ao direito da força, é que da força só compreenderam a violência e o abuso. Cada força leva o seu direito consigo própria; as forças no homem e na sociedade devem equilibrar-se e não aniquilar-se. (Idem, cap. VII, liv. II.) ... Numa sociedade bem ordenada, as forças só lutam um momento para se reconhecerem, se controlarem, se confirmarem e se classificarem... A oposição entre as forças tem pois por fim a sua harmonia... Todo o antagonismo no qual as forças, em vez de se porem em equilíbrio, de destroem mutuamente... é uma subversão. (La Guerre et la Paix, cap. II, liv. IV.)
Conclui-se daqui que o antagonismo, que aceitamos como lei da humanidade e da natureza, não consiste essencialmente, para o homem, num pugilato, ou numa luta corpo a corpo. Trata-se, afinal, duma luta de inteligência e de progresso... (Idem, cap. IV, liv. V.)
A paz não é o fim do antagonismo, o que quereria dizer o fim do mundo; a paz é o fim do massacre, o fim do desgaste improdutivo dos homens e das riquezas...
O antagonismo, com efeito, não tem por objectivo uma destruição pura e simples, um desgaste improdutivo... Tem por objectivo a criação duma ordem superior, dum aperfeiçoamento sem fim. Sob este aspecto, é preciso reconhecer que o trabalho oferece ao antagonismo um campo de operação doutro modo vasto e fecundo como a guerra. (Idem, cap. V, liv. V.)
Pelo trabalho bem mais do que pela guerra, o homem manifestou a sua coragem. (Justice, Le Travail.)
Trata-se sempre da luta ou concorrência entre as forças, não da luta armada e sangrenta, mas da luta do trabalho e da inteligência. (La Guerre et la Paix, concl. gerais.)
No mundo, nada se destroi, nada se perde: tudo se desenvolve e se transforma sem cessar: tal é a lei dos seres, a lei das instituições sociais... O governo, imagem visível da unidade política, a propriedade, forma concreta da liberdade individual, não podem aniquilar-se totalmente.
Qualquer transformação a que tenham de submeter-se, estes elementos subsistem sempre, pelo menos na sua virtualidade, a fim de incessantemente imprimirem ao mundo, devido à sua contradição essencial, o movimento. (Conf. dun Révol., cap. XIX.)
É bem certo que a ciência do direito, como a da economia política... rola sobre perpétuas antinomias... (Lettre à Langlois, 30 de Dez. de 1861.)
É pela sua oposição mútua, e não por uma restrição arbitrária, que as forças económicas se contêm entre si. (Idées gén. de la Révol.)
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