AS RELAÇÕES SOCIAIS MULTIPLICADOR DE LIBERDADE
A liberdade é de dois tipos... uma, simples, a do bárbaro ou do próprio civilizado que não reconhece outra lei a não ser a de cada um consigo, cada um para si; outra, composta, quando supõe, para a sua existência, o concurso de duas ou várias liberdades.
Sob o ponto de vista bárbaro, liberdade é sinónimo de isolamento; é-se tanto mais livre quanto menos a acção for limitada pela acção dos outros...
Sob o ponto de vista social, liberdade e solidariedade são termos idênticos: encontrando a liberdade de cada um na liberdade de outrém, não um limite.... mas um auxiliar, o homem mais livre é aquele que tiver mais relações com os seus semelhantes.
A liberdade é a acção... A troca cria... relações que tornando as suas liberdades solidárias, lhes aumentam a extensão: a liberdade cresce, como a força, com a união, vis unita major. Este facto elementar revela-nos todo um sistema de novos desenvolvimentos para a liberdade, sistema no qual a troca dos produtos não é senão o primeiro passo. (Confes., cap. XV.)
Para que haja sociedade é preciso que haja engrenagem de liberdades, transacções voluntárias, obrigações reciprocas... graças a este organismo, os indivíduos... especializam-se segundo o seu talento, a sua habilidade, as suas funções, e desenvolvem e multiplicam... a sua acçao propria e a sua liberdade... de modo que chegamos a este resultado decisivo: querendo fazer tudo pela liberdade, só a minoramos; obrigando-a a transigir, aumentamo-la. (Justice, Posit du Probl.)
4. - A FUNÇÃO DA LIBERDADE:
DESFATALIZAÇÃO E IDEAL OU DECADÊNCIA
De acordo com a teoria que apresentei, sobre. a liberdade, disse que o homem dava o confirmatur a todas as demonstrações do entendimento, em virtude da sua liberdade; isto é, ele demonstra a força da colectividade, física e mental, que o eleva acima de todas as considerações do entendimento, da consciência e da experiência. (Lettre à Langlois, 17 de Janeiro de 1862.)
A função da liberdade consistirá, pois, em manter o sujeito livre acima de todas as manifestações, desejos e leis, tanto da matéria, como da vida e do espírito; em dar-lhe um carácter, por assim dizer, de «sobrenatureza». Donde se conclui que o homem, colocado sob a direcção do seu próprio arbítrio, poderá, se o quiser, não permanecer tal como o criou a natureza; dependerá dele conformar-se, aperfeiçoar-se, transfigurar-se, como também, no caso em que ele colocaria a sua liberdade e ao mesmo tempo a sua inteligência ao serviço da sua paixão, será senhor de desonrar a sua pessoa, de depravar o seu ser e de o aviltar abaixo do que a animalidade produziria sozinha. Em suma, conforme a via que escolher, o homem, em virtude da sua liberdade, dará à sua figura, ao seu pensamento, à sua linguagem, aos seus actos, aos seus costumes, às suas produções, um carácter de grandeza, de poesia, ou de baixeza que, mais que a própria inteligência, o distinguirá dos outros animais, e testemunhará a sua força sobre si próprio...
Relativamente à criação... a acção do homem... será semelhante à que ele exerce sobre a sua própria pessoa ele embelezá-la-á... fá-la-á à sua própria imagem como também poderá deformá-la, destrui-la...
O sublime e o belo, numa palavra o ideal; inversamente, o ignóbil e o feio, ou o caos: eis o que constitui no homem a obra própria, a função da berdade...
A justiça, como instinto de sociabilidade preexiste ao livre arbítrio... mas é o livre arbítrio que, pela sua potente idealizarão, dá a esse sentimento o anofísico força penetrante...
O princípio de todas as utopias que agitam a sociedade é ainda o mesmo: o ideal, produto da liberdade...
É este sentimento profundo, anti-governamentalista, anti-mistico da liberdade, o sentimento mais vivo dos nossos dias, que nunca morrerá entre os homens, que provocou, nestes últimos angs, a repugnância universal contra todas as utopias de organização política e de fé social, propostas em substituição das antigas, e que fez abandonar os seus autores, Owen, Fourier, Cabet, Enfantin, Auguste Comte.
O homem ja nao quer que o organizem., que o mecanizem; a sua tendência é... para a desfatalização - Passe o termo - por toda a parte em que sinta o peso dum fatalismo ou dum maquinismo...
A função da liberdade... tem como objectivo... permitir ao homem variar à vontade as suas operações, e governar a sua existência... Mas qual é o fim de tudo isto?...
- Libertação progressiva da pessoa humana pela ciência e pelo trabalho;...
- Aperfeiçoamento da espécie e equilíbrio da sociedade, pela Justiça;
- A Justiça, na sua mais excelente ideia, é, a palavra da liberdade; e ambas acabam por se confundirem... As próprias obras da liberdade, desde que separadas da obra de base, para a uem, seriam igualmente de valor nulo; como fins, elas são más. O nosso fim é a Justiça. (Justice, Consc. et Lib.)
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