sexta-feira, março 19, 2010

Fazendo as contas

Entre 2003 e 2007 o Ministério Público indiciou dez padres por abuso sexual de crianças. Nesse período, houve um total de 5128 casos desses em Portugal(1). Há cerca de quatro mil padres (2) e cinco milhões de homens em Portugal. Assumindo que esses 5128 casos correspondem a 5128 homens indiciados, dá cerca de 1 homem em cada 1000 indiciado por pedofilia contra 1 padre em cada 400. Contas por alto, o dobro da incidência nos padres.

No entanto, a pedofilia é um dos crimes com maior reincidência, estimada em 80-90% (3). Além disso, apesar de relativamente raro, há também mulheres que cometem estes crimes. Por isso uma estimativa mais razoável, à falta de dados em concreto, é que aqueles 5128 casos corresponderão a dois ou três mil homens. Nesse caso a proporção de pedófilos entre os padres será cerca do quádruplo da proporção de pedófilos entre todos os homens.

Uma complicação é que dez indiciados em quatro mil é um número muito pequeno para uma conclusão estatisticamente significativa*. Mais elucidativos são os números acerca dos EUA. Houve mais de dez mil alegações de abusos sexuais por parte de padres católicos entre 1950 e 2002. Dessas, foram substanciadas por investigações posteriores 6,700 acusações a 4,392 padres**, o que equivale a 4% dos padres em exercício no período considerado(4). Uma incidência dez vezes maior que a reportada para os padres portugueses*** e quarenta vezes maior que nos homens em Portugal.

A menos que os padres católicos nos EUA sejam dez vezes mais pedófilos que os seus congéneres por cá, os números que conhecemos em Portugal devem subestimar a gravidade do problema. O que não seria de estranhar pela comprovada capacidade da Igreja Católica para abafar estes casos. Por isso, mesmo que os números sejam incertos, justifica-se concluir que há uma correlação entre a pedofilia e o sacerdócio na Igreja Católica.

É claro que correlação não implica causalidade, e nada indica que seja o sacerdócio – ou alguma característica como o celibato – que torna esses homens pedófilos. Até porque há uma explicação mais simples. Se um homem é pedófilo, o sacerdócio é uma opção de carreira especialmente atraente. Para alguns pode ser uma forma de reprimir os impulsos sexuais que reconhecem ser errados, infelizmente com pouco sucesso. E para outros é uma ocupação ideal. Muitas oportunidades de estar sozinhos com uma criança, o que é raro permitir-se a homens solteiros, a confiança implícita dos pais e da comunidade, autoridade sobre a criança e os seus familiares e uma forma respeitável de evitar constituir família e partilhar uma vida íntima com quem pudesse facilmente descobrir essas tendências. É uma combinação perfeita para qualquer pedófilo.

A conclusão não será que os padres têm propensão para a pedofilia mas que os pedófilos têm uma atracção pelo sacerdócio. E, ao que parece, um número significativo acaba por conseguir entrar.

As contas são por alto, os números incertos e o próprio crime de abuso sexual de crianças é difícil de investigar. Até é difícil de definir, variando de país para país conforme a legislação. Mas uma coisa parece certa. Há uma premissa implícita que o sacerdote, por ser homem de fé e de um deus, merece mais confiança que os outros homens. Mesmo sem o conhecerem bem e sem saberem o que faz na sua vida privada, as pessoas confiam-lhe os seus filhos. Esta premissa está errada.

Os padres são, na melhor das hipóteses, homens como os outros. A maioria é decente, alguns são excepcionalmente bons e outros são o contrário. Devemos desfazer a ideia mítica que um homem merece mais confiança só por professar uma fé, saber muitos rituais e alegar conhecer um deus. Dizem que a religião torna as pessoas melhores mas os números não o confirmam. E, seja como for, não dá para ver com quais funcionou só de olhar para a batina. À cautela, o melhor é não confiar crianças a homens estranhos, por muito celibatários que digam ser.

* Para quem quiser saber, é uma binomial com p=0.0025, n=4000, e um desvio padrão de quase 4. A dois desvios padrão do valor medido, para 90% de confiança, há valores que não suportam a conclusão da frequência de pedófilos ser maior nos padres
** É de notar que 3000 não foram sequer investigadas por o padre acusado ter falecido antes da alegação vir a público. A vasta maioria das alegações investigadas foi substanciada pela investigação.
*** 4% é dezasseis vezes mais que 0.25%, mas isto são contas por alto.

1- i, Padres indiciados por abusos: só os bispos sabem quem eles são
2- Arca Universal, Número de padres em Portugal cai 8,4%
3- Expresso, Taxa de reincidência dos pedófilos chega aos 80%
4- Wikipedia, Catholic sex abuse cases.

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