
O jornalista José Gabriel Viegas morreu hoje aos 68 anos. Durante duas décadas foi colaborador do Expresso, no caderno Actual, onde fazia crítica literária de não-ficção.
Durante 20 anos, Gabriel Viegas foi crítico do Expresso, no caderno Actual, onde escrevia sobre livros de não ficção. História contemporânea, ciência política e sociologia foram alguns dos temas a que se dedicou.
Já não há jornalistas assim!
Em mais de 17000 posts publicados neste blogue é a primeira vez que escrevo sobre a morte de um jornalista.
Quero aqui lembrá-lo e prestar-lhe homenagem.
José Gabriel Viegas foi o único que no Expresso viu e percebeu a importância da divulgação de Proudhon. Em várias ocasiões publicitou os meus livros sobre o assunto e escreveu textos de divulgação e de elogio ao autor do Princípio Federativo.
Não existiu nem existe outro que tenha feito coisa igual ou parecida.
Queria só relembrar um pequeno episódio que tem a ver com uma crítica dum livro ocorrida na edição do Expresso de 3 de Fevereiro de 2001.
A editora Colibri tinha acabado de editar um livro intitulado "150 anos do Manifesto do Partido Comunista - O Manifesto e o seu Tempo" que coligia as comunicações feitas ao colóquio com o mesmo nome e que tinha acorrido em 1998 e em que participei com uma comunicação muito crítica para com Marx, Engels e o próprio texto do Manifesto numa perspectiva anarquista de pendor proudhoniana.
O texto aliás intitulava-se "Proudhon e o Manifesto Comunista de 1848".
Havia textos de autores conhecidos como José Tengarrinha ou Francisco Louçã. Havia textos de professores universitários como por exemplo João Maria de Freitas Branco, João Paisana, Eduardo Chitas ou Fernando Belo todos eles da Universidade de Lisboa. Havia um texto dum especialista alemão Wolfgang Fritz Haug da Universidade de Berlim.
Havia também a inclusão duma carta de Álvaro Pina tradutor da primeira edição integral do manifesto em português publicada em 1975 sob a direcção de Vasco de Magalhães-Vilhena.
A crítica ao livro que o José Gabriel Viegas escreveu tinha quatro colunas.
Apesar de todos os autores mencionados, duas colunas e meia foram dedicadas ao meu texto escrito por um professor do ensino secundário naquela altura ainda "professor provisório" ( hoje diz-se "professor contratado").
Foi o meu texto que abriu e fechou a crítica ao livro mostrando bem que a temática abordada era de longe a mais significativa, do ponto de vista político e filosófico.
É preciso ter coragem para escrever uma crítica assim.Foi preciso ter visão para conseguir separa o trigo do joio...
Já não há jornalistas assim! Eu pelo menos não conheço nenhum!
Do texto do obituário do Expresso ainda se pode ler o seguinte:
“Conheci-o quando regressámos a Portugal porque ele trabalhava para a France Inter e eu para a BBC", lembrou o jornalista António Borga, adiantando que, mais tarde, trabalharam juntos na RTP, "talvez um ano", tendo ficado amigos.
António Borga recorda José Gabriel Viegas como "uma pessoa extremamente culta" e "um excelente jornalista".
Também Eugénio Alves recorda a "grande experiência como jornalista e a grande cultura" de José Gabriel Viegas, com quem trabalhou no Diário de Lisboa.
Não conheci pessoalmente José Gabriel Viegas. Telefonei-lhe uma vez e escrevi-lhe duas a propósito dos meus livros. Estou triste e aborrecido. Hoje é um dia de merda!
Já não há jornalistas assim!
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