ora passa-se o mesmo com todos os capitais; de maneira que colocar um capital num empreendimento é, segundo o rigor do direito, trocar esse capital por uma soma equivalente de produtos. Já não insistirei nesta discussão, doravante inútil, propondo-me tratar a fundo, no capítulo seguinte, do que se chama produzir por um capital.
Assim, o capital pode ser trocado; nunca uma fonte de receita.
Resta o trabalho e o talento ou, como diz Sailnt-Simon, as obras e as capacidades. Vou examiná-las a ambas.
Os salários devem ser proporcionais ao trabalho? Noutros termos, é justo que o que produza mais ganhe mais? Aconselho o leitor a prestar muita atenção.
Para analisar o problema de um só traço basta formular a seguinte questão: O trabalho é uma condição ou um combate? A resposta não me parece duvidosa.
Deus disse ao homem: Comerás o teu pão com o suor do teu rosto, quer dizer: Produzirás o teu próprio pão: com mais ou menos prazer, conforme souberes dirigir e combinar os teus esforços, trabalharás. Deus não disse: Disputarás o pão ao teu próximo; mas: Trabalharás ao lado do teu próximo e ambos viverão em paz. Desenvolvamos o sentido desta lei, cuja simplicidade extrema se poderia prestar a equívoco.
É preciso distinguir duas coisas no trabalho, a associação e a matéria explorável.
Enquanto associados, os trabalhadores são iguais e implica contradição que um seja mais bem pago que outro: porque não podendo o produto de um trabalhador ser pago senão com o produto de um outro trabalhador, se os dois produtos são desiguais, o resto ou a diferença do maior para o menor não será adquirido pela sociedade, e por consequência, não sendo trocada, em nada afectará a igualdade dos salários. Resultará daí uma desigualdade natural para o trabalhador mais forte, se assim o quiserem, mas não uma desigualdade social, pois ninguém foi prejudicado na sua força e na sua energia produtora. Numa palavra, a sociedade só troca produtos iguais, quer dizer, só paga os trabalhas que são feitos para ela; por consequência, paga igualmente a todos os trabalhadores: o que poderiam produzir fora do seu seio não lhe diz mais respeito que a diferença de vozes ou de cabeleiras.
Parece que eu próprio acabo de formular o princípio da desigualdade: é exactamente ao contrário.
A soma dos trabalhos que podem ser feitos para a sociedade, quer dizer, trabalhos susceptíveis de troca, sendo tanto maior, num dado fundo de exploração, quanto os trabalhadores se multiplicam, e que a tarefa deixada a cada um se reduz; portanto, a desigualdade natural neutraliza-se à medida que a associação se estende e uma maior quantidade de valores consumíveis é produzida socialmente: de maneira que a única coisa que na sociedade pôde conduzír à desigualdade do trabalho foi o direito de ocupação, o direito de propriedade.
Ora imaginemos que essa tarefa social diária, avaliada em trabalho, monda, ceifa, etc., seja de dois decâmetros quadrados e que a média de tempo necessária para desempenhar seja de sete horas: determinado trabalhador cumpriu a tarefa em seis horas, um outro em oito horas; o maior número demorará sete: mas desde que cada um forneça a quantidade de trabalho pedida tem direito à igualdade de salário, qualquer que seja o tempo gasto.
O trabalhador capaz de cumprir a sua tarefa em seis horas estará no direito, sob pretexto da sua maior potencialidade e actividade, de usurpar a tarefa do trabalhador menos hábil e de lhe roubar assim o trabalho e o pão? Quem ousaria sustentá-lo? Repouse, se quiser, o que termina antes dos outros, que se entregue a exercícios e a trabalhos úteis para entretenimento das suas forças e cultura de espírito, para prazer da sua vida; pode fazê-lo sem prejudicar ninguém. O vigor, o génio, a diligência e todas as vantagens pessoais que daí resultam, são próprios da natureza e, até certo ponto, do indivíduo: a sociedade dá-lhes a estima que merecem; mas o salário que lhes proporciona está em relação não com o que podem mas com o que produzem. Ora o produto de cada um está limitado pelo direito de todos.
Se a extensão do solo fosse infinita e a quantidade de matérias a explorar inesgotável, já não se poderia especular a máxima: A cada um segundo o seu trabalho; e porquê? porque mais uma vez a sociedade, qulquer que seja o número de pessoas que a compõem, só pode dar o mesmo salãrio a todos porque lhes paga com os próprios produtos. Só que, na hipótese que acabamos de formular, nada podendo impedir os fortes de usar de todas as vantagens, veríamos, no próprio seio da igualdade social, renascer os inconventes da desigualdade natural.
Sem comentários:
Enviar um comentário