§ 7.º - QUE A DESIGUALDADE DAS FACULDADES É A CONDIÇÃO NECESSÁRIA PARA A IGUALDADE DAS FORTUNAS
Objecta-se, e esta objecção fundamenta a segunda parte do adágio são-simoniano e a terceira do fourierista:
Nem todos os trabalhos a executar são igualmente fáceis: há os que exigem uma grande superioridade de talento a inteligência, sendo esta mesma superioridade que estabelece o preço. O artista, o sábio, o poeta, o homem de Estado não são estimados senão em razão da sua superioridade, que destrói toda a semelhança entre eles e os outros homens: perante essas sumidades da ciência e do génio desaparece a lei da igualdade. Ora se a igualdade não é absoluta não existe: do poeta desceremos ao romancista; do escultor ao talhador de pedras; do arquitecto ao pedreiro; do químico ao cozinheiro, etc. As capacidades classificam-se e dividem-se em ordem, género e espécie; os extremos do talento ligam-se por outros talentos intermédios; a humanidade apresenta uma vasta hierarquia na qual o indivíduo se aprecia por comparação a encontra o seu preço no valor do que produz.
Esta objecção sempre pareceu formidável: é o obstáculo que atrapalha os economistas assim como os adeptos da igualdade. Induziu os primeiros em erros enormes e fez os outros cair em incríveis pobrezas. Gracchus Babeuf queria que toda a superioridade fosse severamente reprimida e mesmo perseguida como flagelo sociai; para nivelar o edifício da comunidade rebaixava todos os cidadãos à altura do mais pequeno. Viram-se eleitores ignorantes rejeitarem a desigualdade da ciência e não ficaria surpreendido se outros se insurgissem um dia contra a desigualdade das virtudes. Aristóteles foi banido, Sócrates bebeu a cicuta, Epaminondas foi citado em julgamento, ao terem sido considerados superiores quanto à razão e à virtude por demagogos devassos e imbecis. Tais loucuras renovar-se-ão, tanto quanto a desigualdade das riquezas levar uma populaçáo cega e oprimida pela riqueza a recear o domínio de novos tiranos.
Nada parece mais monstruoso que o objecto olhado demasiadamente perto: às vezes não é menos verosímil que o verdadeiro.
Por outro lado, segundo J.-J. Rousseau, «é precisa muita filosofia para saber observar uma vez o que se vê lodos os dias»; e, segundo d'Alembert, «a verdade, que parece mostrar-se de todas as partes aos homens, não os espanta nada, a menos que não estejam prevenidos». O patriarca dos economistas, Say, de quem tirei estas duas citações, teria podido aproveitar-se deIas; mas tal como quem ri dos cegos deveria usar lunetas, assim o que o nota sofre do miopia.
Coisa estranha! o que tanto perturbou os espíritos não foi uma objecção, foi a condição da igualdade!...
A desigualdade da natureza, condição da igualdade das fortunas!... que paradoxo!... Repito a minha afirmação a fim de que não pensem que hesito: a desigualdade das faculdades é a condição sine qua non da igualdade das fortunas.
É preciso distinguir duas coisas na sociedade: as funções e as relações.
I - Funções. Todo o trabalhador é tido por apto na obra de que está encarregado ou, para me exprimir como normalmente, todo o artífice deve conhecer o seu ofício. Bastando o operário à sua obra, há equação entre o funcionário e a função.
Numa sociedade de homens as funções não se assemelham: portanto devem existir capacidades diferentes. AIém disso, certas funções exigem maior capacidade e inteligência, existem pois sujeitos com um espírito e talento superiores. A obra a realizar conduz necessariamente o operário: a necessidade dá a ideia e é a ideia que faz o produtor. Apenas sabemos o que a excitação dos nossos sentidos nos faz desejar e a nossa inteligência exige; só desejamos vivamente o que percebemos bem; e quanto melhor realizarmos mais somos capazes de produzir.
Assim, dadas as funções conforme as necessidades, as necessidades segundo os desejos, os desejos de harmonia com a percepção espontânea, com a imaginação, com a própria inteligência que julga também poder produzir; por consequência, nenhum trabalho a executar é superior ao trabalhador. Numa palavra, se a função chama o funcionário é porque, na realidade, o funcionário existe antes da função.
Observemos, então, a economia da natureza: pela quantidade infinda dos diversos produtos que ela nos dá e que as forças do homem isolado não poderia alcançar, a natureza devia conceder à espécie o poder recusado ao indivíduo:
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