domingo, março 14, 2010

O NEGRO E O VERMELHO

daí o princípio da divisão do trabalho, princípio baseado na especialidade das vocações.
Ainda mais, a satisfação de certas necessidades exige do homem uma criação contínua enquanto que outras podem, pelo trabalho de um só, ser satisfeitas em milhões de homens e para milhares de séculos. Por exemplo a necessidade do vestuário e da alimentação pede uma reprodução perpétua; enquanto que o conhecimento do sistema do mundo podia ser adquirido para sempre por dois ou três homens de escol. Assim, o curso perpétuo dos rios mantém o nosso comércio e faz girar as nossas máquinas; mas o Sol, único no meio do espaço, ilumina o Mundo! A natureza, que poderia criar Platões e Virgílos, Newtons e Cuviers, como cria operários e pastores, não o quer, proporcionando a raridade do génio à duração dos seus produtos e nivelando o número das capacidades pela suficiência de cada uma delas.
Não entendo se a distância em talento e inteligência que vai deste àquele homem vem da nossa civilização deplorável e se o que hoje se chama desigualdade de faculdades não seria sennão diversidade de faculdades, em condições mais felizes: presumo o pior e, para que não me acusem de hesitar ou ladear as dificuldades, concordo com todas as desigualdades de talento que quiserem (1). Certos filósofos, amantes do nivelamento, pretendem que todas as inteligências são iguais e que toda a diferença vem da educação. Confesso que estou longe de partilhar esta doutrina; aliás, se ela fosse verdadeira conduziria a um resultado directamente contrário ao que se pretende. Porque, como ninguém pode ser contrariado, se as capacidades são iguais qualquer que seja o seu grau de potência, são as funções reputadas grosseiras, vis ou demasiado difíceis, que devem ter melhor remuneração, facto que repugna mais à igualdade que ao, princípio:
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(l) Não concebo como se ousa alegar a baixeza de inclinações e de génio de certos homens para justificar a deslgualdade das condições. Donde vem essa degradação vergonhosa de coração espírito da qual vermos tantas vítimas senáo da miséria e abjecçáo em que a propriedade as rejeita? A propriedade faz o homem eunuco e depois acusa-o de ser apenas um pau seco, uma árvore estéril.
a cada capacidade segundo as suas obras. Dêem-me, ao contrário, uma sociedade na qual cada espécie de talento esteja em relação de número com as necessidades e onde se exija de cada pessoa apenas o que a sua especialidade produz e, respeitando a hierarquia das funções, deduzirei daí a igualdade das fortunas.
Eis o segundo ponto.
II - Relações. Tratando do elemento trabalho fiz ver como, num mesmo género de serviços produtivos, sendo dada a todos a capacidade de desempenhar uma tarefa social a desigualdade das forças individuais não pode fundamentar nenhuma desigualdade de retribuição. No entanto é justo dizer que certas capacidades parecem completamente incapazes de certos serviços, de tal maneira que se a indústria humana ficasse de repente limitada a uma única espécie de produtos, imediatamente surgiriam inúmeras incapacidades e a maior desigualdade social. Mas toda a gente vê, sem que eu o diga, que à variedade das indústrias prevê as inutilidades; é uma verdade tão banal que não me deterei aqui. A questão reduz-se pois a provar que as funções são iguais entre elas como os trabalhadores são iguais entre si, numa mesma função.
Admiram-se que eu recuse ao génio, à ciências à coragem, numa palavra, a todas as superioridades que o mundo admira: a homenagem das dignidades, as distinções do poder e da opulência. Não sou eu que recuso, é a economia, a justiça, a liberdade que proíbem. A liberdade! pela primeira vez invoco o seu nome neste debate: que ela se erga pela sua própria causa e consiga a vitória.
Toda a transacção tem por fim uma troca de produtos ou serviços que podemos qualificar como uma operação de comércio.
Quem diz comércio diz troca de valores iguais; porque se os valores não são iguais e o contratante lesado se apercebe disso não consentirá a troca e não se fará comércio.
O comércio só existe entre homens livres: por toda a parte pode haver transacção conseguido pela violência ou pela fraude, mas não há comércio.
É livre: o homem na posse da sua razão e faculdades que não está cego pela paixão nem constrangido ou impedido pelo receio, nem desiludido por uma falsa opinião.

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