terça-feira, março 16, 2010

O NEGRO E O VERMELHO

Segundo os economistas o valor relativo ou de troca das coisas não pode ser determinado de uma maneira absoluta; varia essencialmente.
«O valor de uma coisa, diz Say, é uma quantidade positiva mas não o é senão para fim dado momento. A sua natureza é continuamente variável, mudando de um sítio para o outro. Nada pode fixá-lo invariávelmente porque se baseia em necessidades e meios de produção que variam em cada minuto. Essas variáveis complicam os fanómenos da economia política e tornam-nos, miuitas vezes, difíceis de observar e resolver. Não saberia dar remédio a isso; não está no nosso poder modificar a natureza das coisas.»
Aliás, Say diz e repete que, sendo a utilidade a base do valor e dependendo a utilidade inteiramente das nossas necessidades, caprichos, moda, etc., o valor é tão variável como a opinião. Ora, sendo a economia política a ciência dos valores, da sua produção, distribuição, troca e consumo, se o valor de troca não pode ser absolutamente determinado, como é possível a economia política? Como chamá-la uma ciência? Como é que dois economistas se podem encarar sem se rir? Com que cara ousam insultar os metafísicos e os psicólogos? Quê! esse louco Descartes imaginava que a filosofia tinha necessidade de um base indestrutível, de um aliquid inconcussum sobre o qual se pudesse assentar o edifício da ciência e tinha a paciência de o procurar; e o Hermes da economia, o trismegisto Say, consagrando um meio volume à ampliação desse texto solene, a economia política é uma ciência, tem a coragem de afirmar em seguida que essa ciência não pode determinar o seu objecto, ou seja, que não tem princípio nem fundamento! Ignorava então o ilustre Say o que é uma ciência ou então nada sabia do que se atrevia a falar.
O exemplo de Say deu os seus frutos: a economia política, no ponto a que chegou, assemelha-se à ontologia; discorrendo sobre efeitos e causas não sabe nada, não explica nada, não conclui nada. O que se decorou sob o nome de leis económicas reduz-se a algumas generalidades triviais, às quais julgou dar um ar de profunda sabedoria revestindo-as de um estilo precioso; quanto às soluções preconizadas pelos economistas e respeitantes aos problemas sociais, pode dizer-se que se as suas lucubrações saem, por vezes, do nada, logo vão cair no absurdo.
Há vinte e cinco anos que a economia política paira sobre a França como um espesso nevoeiro, limitando a expansão dos espíritos, comprimindo a liberdade.
Toda a criação industrial tem um valor venal, absoluto, imutável, portanto legítimo e verdadeiro? - Sim.
Todo o produto do homem pode ser trocado por um produto do homem? - Sim.
Quantos pregos vale um par de chinelos?
Se pudéssemos resolver este terrível problema teríamos a chave do sistema social que a humanidade procura há seis mil anos. Perante este problema o economista atrapalha-se e recua; o camponês, que não sabe ler nem escrever, responde sem hesitar: Tantos quantos se possam fazer no mesmo tempo e com igual despesa.
O valor absoluto de uma coisa é, pois, o que custa em tempo e despesa: quanto vale um diamante que apenas teve que se apanhar da areia? - Nada, não é um produto do homem. - Quanto valerá quando estiver talhado e montado? - O tempo e a despesa que tiver custado ao operário. - Então, porque se vende tão caro? - Porque os homens não são livres. A sociedade deve regular a troca e a distribuição das coisas mais raras como a das coisas mais vulgares, de maneira que cada um possa tomar parte nisso e daí fruir. - Que é então o valor de opinião? - Uma mentira, uma injustiça e um roubo.
Depois dísto é fácil que toda a gente concorde. Se o meio termo que procuramos entre um valor infinito e um valor nulo se exprime, para cada produto, pela soma de tempo e despesa que esse produto custa, um poema que tivesse custado ao seu autor trinta anos de trabalho e 10.000 francos de despesas em viagens, livros, etc., deveria ser pago com trinta anos de salário normal de um trabalhador, mais 10.000 francos de indemnização. Admitamos que a soma total é de 50.000 francos; se a sociedade que adquire essa obra-prima compreende um milhão de homens, pela minha parte devo cinco cêntimos.
Isto dá lugar a algumas observações.
1.º - 0 mesmo produto em épocas e lugares diferentes pode custar mais ou menos tempo e despesas; sob este acto é verdade que o valor é uma quantidade variável. Mas essa variação não é a dos economistas que, nas causas da variação dos valores, confundem os meios de produção e o gosto, o capricho, a moda, a opinião.

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