sexta-feira, março 19, 2010

O NEGRO E O VERMELHO

Continuo de acordo: mas então tomo o teatro à parte: de quem é que o Teatro Francês recebe esse imposto? - De curiosos, perfeitamente livres. --Sim, mas são livres os operários, locatários, rendeiros, aos quais esses curiosos tiram tudo o que pagam à comédia? e enquanto a maior parte do seu produto se consome, sem eles, no espectáculo, asseguram-me que às suas famílias nada falta? Até que o povo francês, deliberando sobre o tratamento a dar a todos os artistas, sábios e funcionários públicos tenha claramente expresso a sua vontade e julgado com conhecimento de causa, os salários de Raquel e de todos os seus semelhantes serão uma contribuição forçada, arrancada pela violência, para recompensar o orgulho e sustentar a libertinagem.
Não somos livres nem suficientemente esclarecidos: suportamos mercados de espertalhões, o trabalhador paga a traidores, o prestígio do poder e o egoísmo do talento empurram para a curiosidade do ócio, permitimos o escândalo contínuo das desigualdades monstruosas, encorajadas e aplaudidas pela opinião.
A nação inteira, e só a nação, paga aos seus autores, sábios, artistas, funcionários, quaisquer que sejam as mãos pelas quais os salários lhe chegam. Em que base deve pagámos? na base da igualdade. Provei-o pela apreciação dos talentos; confirmá-lo-ei, no capítulo seguinte, pela impossibilidade de toda a desigualdade social.
Que demonstrámos no que atrás foi expresso? coisas tão simples que realmente são tolas:
Que, como o viajante não se apropria da grande estrada em que passa, da mesma maneira o trabalhador não se apropria do campo em que semeia:
Que, no entanto, se pelo facto da sua indústria, um trabalhador se pode apropriar da matéria que explora, todo o explorador se torna proprietário sob o mesmo título;
Que todo a capital, material ou intelectual, sendo uma obra colectiva, constitui, por consequência, uma propriedade colectiva:
Que o forte não tem o direito de impedir o trabalho do fraco com as suas invasões, nem o hábil de surpreender a boa fé do simples:
Enfim, que ninguém pode ser forçado a comprar o que não deseja, menos ainda a pagar o que não compra: partindo do principio que não tendo o valor de troca de um produto por medida, nem a opinião do comprador ou do vendedor, mas efectivamente a soma de tempo e despesas que custou, a propriedade de cada um conserva-se sempre igual.
Não são verdades bem tolas? Bem! por tão tolas que lhe pareçam, leitor, verá outras que ainda as ultrapassarão em vulgaridade e tolice, porque caminhamos ao contrário dos geómetras; para eles, à medida que avançam os problemas tornam-se cada vez mais difíceis; nós, pelo contrário, depois de termos começado pelas proposições mais confusas acabaremos pelos axiomas.
Mas é preciso, para terminar o capítulo, expor uma dessas exorbitantes verdades que jurisconsultos ou economistas jamais descobriram.

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