CAPÍTULO IV
QUE A PROPRIEDADE É IMPOSSÍVEL.
A última razão dos proprietários, o argumento fulminante cujo poder invencível os tranquiliza é, segundo eles, que a igualdade das condições é impossível. A igualdade das condições é uma quimera, exclamam eles com um ar de segurança; partilhem hoje os bens em porções iguais, amanhã essa igualdade terá desaparecido.
A esta objecção banal, que repetem em todos os lugares com uma segurança incrível, não deixam nunca de acrescentar a seguinte glosa, em forma de Gloria Patri: Se todos os homens fossem iguais ninguém quereria trabalhar.
Esta antífona canta-se em vários tons.
Se toda a gente fosse senhor ninguém quereria obedecer.
Se não houvesse ricos quem faria trabalhar os pobres?...
E se não houvesse pobres quem trabalharia para os ricos?... Mas nada de recriminações: temos melhor para responder.
Se demonstrar que a própria propriedade é impossível; que a propriedade é contradição, quimera, utopia; e se o demonstrar, não por considerações de metafísica e direito mas pela razão dos números, por equação e cálculos, qual será o espanto imediato do proprietário assustado? E vós, leitor, que pensals da refutação?
Os números governam o mundo, mundum regunt numeri: este adágio é tão verdadeiro no mundo moral e político como no mundo sideral e molecular. Os elementos do direito são os mesmos que os da álgebra;
a legislaçáo e o governo não são mais que a arte de fazer classificações e equilibrar potências: toda a jurisprudência está nas regras da aritmética. Este capítulo e o seguinte servirão para lançar os fundamentos desta incrível doutrina. desvendar-se-á, então, aos olhos do leitor, uma pista nova e imensa: então começaremos a ver nas proporções dos números a unidade sintética da filosofia e das ciências e, cheios de admiração e entusiasmo perante esta profunda e majestosa simplicidade da natureza exclamaremos, com o Apóstolo: «Sim, o Eterno fez tudo com conta, peso e medida.» Compreenderemos que a igualdade das condições não 36 é possível com é a única viável; que esta aparência de impossibilidade que lhe atribuírmos parte da concepção de existirem quer na propriedade, quer na comunidade, formas políticas tão contrárias uma como a outra à natureza do homem. Reconheceremos, então, que todos os dias contra a nossa vontade, no próprio momento em que afirmamamos que é irrealizável, esta igualdade se realiza; que se aproxima o momento que sem a termos procurado nem mesmo desejado, a teremos estabelecido em toda a parte, que com ela, nela o por ela se deve manifestar a ordem política segundo a natureza e a verdade.
Falando da cegueira e da obstinação das paixões, diz-se que se o homem tivesse qualquer interesse em negar as verdades da aritmética encontraria meio de abalar a certeza: eis a ocasião de fazer essa curiosa experiência. Ataca a propriedade já não pelos seus próprios aforismos mas pelo cálculo. Que os proprietários estejam, pois, prontos a verificar as minhas operações: se por infelicidade deles estiverem certas, estarão perdidos.
Provando a impossibilidade da propriedade acabo de provar a injustiça; com efeito:
O que é justo, com mais forte razão é útil;
que é útil, com mais forte razão é verdadeiro;
O que é verdadeiro, com mais forte razão é possível;
Consequentemente, tudo o que sai do possível sai por isso mesmo da verdade, da utilidade, da justiça. Portanto, a priori pode julgar-se da justiça de uma coisa pela sua impossibilidade; de maneira que, se essa coisa fosse soberanamente impossível, seria soberanamente injusta.
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