terça-feira, março 16, 2010

O NEGRO E O VERMELHO

Numa palavra, o valor verdadeiro de uma coisa é invariável na sua expressão algébrica, se bem que possa variar na sua expressão monetária.
2.º - Todo o produto procurado deve ser pago segundo o que custou em tempo e despesas, nem mais nem menos: todo o produto não procurado é uma perda para o produtor, nulo de valor comercial.
3.º - A ignorância do princípio de avaliação e, em muiitas circunstâncias, a dificuldade de o aplicar, é a fonte das fraudes comerciais e uma das causas mais poderosas da desigualdade das riquezas.
4.º - Para pagar certas indústrias ou certos produtos, é preciso uma sociedade tanto mais numerosa quanto os talentos são mais raros, os produtos mais caros, as artes e as ciências mais multiplicadas nas suas espécies. Se, por exemplo, uma sociedade de 50 trabalhadores pode sustentar um professor escolar é preciso que sejam 100 para haver um sapateiro, 150 para fazer viver um marechal, 200 para um alfaiate, etc. Se o número de trabalhadores se eleva a 1000, 10000, 100000, etc., à medida que o número aumenta é preciso que o dos funcionários de primeira necessidade aumente na mesma proporção: de maneira que as funções mais altas só se tornam possíveis nas sociedades mais poderosas(1). Apenas nisso consiste a distinção das capacidades: o carácter do génio, o cunho da sua glória é só poder nascer e desenvolver-se no seio de uma enorme nacionalidade. Mas essa condiçáo fisiológica do génio nada acrescenta aos seus direitos sociais: longe disso, o retardamento da sua aparição demonstra que, na ordem económica e civil, a inteligencia mais alta está submetida à igualdade dos bens, igualdade que lhe é anterior e de que constitui o topo.
Isso é duro para o nosso orgulho, mas trata-se de uma verdade inexorável. E aqui a psicologia vem apoiar a economia social, fazendo-nos compreender que entre uma recompensa material e o talento não existe medida comum; que, sob esse aspecto, é igual a condição de todos os produtores; consequentemente, é impossível toda a comparação entre eles e toda a distinção de riquezas.
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(1) Quantos cidadãos fazem falta para assalariar um professor de filosofia? 35 milhões. Quantos para um economista? 2 mil. E para um homem de letras que não é sábio, nem artista, nem filósofo, nem economista, e escreve romances em fascículos? Nenhum.
Com efeito, saindo toda a obra das mãos do homem, adquire um preço inestimável comparada à matéria bruta de que é formada: quanto a isto, a distância entre um par de chinelos e um tronco de nogueira é tão grande como entre uma estátua de Scopas e um bloco de mármore. O génio do mais simples artífice transporta-o tanto sobre os materiais que explora como o espírito de um Newton sobre as esferas inertes de que calcula as distâncias, as massas e as revoluções. Pedem para o talento e o génio a proporcionalidade das honras e dos bens; avaliem o talento de um lenhador e eu avaliarei o de um Homero. Se alguma coisa !pode pagar a inteligência é a própria inteligência. É o que acontece quando produtores de ordens diversas se pagam com um recíproco tributo de admiração e elogios. Mas trata-se de uma troca de produtos com o fim de satisfazer mútuas necessidades? Essa troca só se pode efectuar sob a razão de uma economia indiferente às considerações de talento e génio e cujas leis se deduzam não de uma admiração vaga e insignificante mas de uma balança justa entre o deve e o haver, numa expressão da aritmética comercial.
Ora, a fim de que não se imagine que a liberdade de comprar e vender faz toda a razão da igualdade de salários e que a sociedade não tem refúgio contra a superioridade do talento senão numa certa força de inércia, que nada tem de comum com o direito, vou explicar porque é que a mesma retribuição paga todas as capacidades, porque é que a própria diferença de salário é uma injustiça. Mostrarei, inerente ao talento, a obrigação de se curvar sob o nível social; e sobre a própria superioridade do génio basearei a igualdade das fortunas. Há pouco dei a razão negativa da igualdade de salários entre todas as capacidades, vou dar agora a razão directa e positiva.
Escutemos primeiro o economista: dá sempre prazer ver como ele raciocina e sabe ser justo. Aliás sem ele, sem os seus divertidos disparates e os seus maravilhosos argumentos, nada aprenderíamos. A igualdade, tão odiosa ao economista, deve tudo à economia política.

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