não pagou o talento, como o capitalista não pagou o seu domínio e o seu castelo assalariando os operários. O homem de talento contribuiu para produzir em si próprio um instrumento útil: portanto é co-possuir; não é proprietário. Há em si, ao mesmo tempo, um trabalhador livre e um capital social acumulado: como trabalhador é proposto para o uso de um instrumento, para a direcção de uma máquina, ou seja a sua própria capacidade; como capital não se pertence, não se explora para si próprio mas para os outros.
No talento encontrar-se-iam mais motivos para rebaixar o seu salário do que para o elevar acima da condição comum se, por seu lado, o talento não encontrasse na sua excelência um refúgio contra a censura dos sacrifícios que exige. Todo o produtor recebe uma adubação, todo o trabalhador é um talento, uma capacidade, quer dizer, uma propriedade colectiva mas cuja criação não é igualmente custosa. Poucos mestres, poucos anos, poucas recordações tradicionais são precisas para formar o cultivador e o artífice: o esforço gerador e, ousando o emprego dessa linguagem, a duração da gestação social, estão na razão da sublimação das capacidades. Mas enquanto que o médico, o poeta, o artista, o sábio, produzem pouco e tardiamente, a produção do trabalhador é muito menos incerta e não espera tantos anos. Portanto., qualquer que seja a capacidade de um homem, desde que essa capacidade é criada já não lhe pertence; qualquer matéria que uma mão estudiosa trabalhasse tinha a faculdade de tornar-se, mas a sociedade fê-lo ser. O vaso dirá ao pote: sou o que sou e não te devo nada?
O artista, o sábio, o poeta recebem a justa recompensa apenas pelo facto da sociedade lhes permitir que se entreguem exclusivamente à ciência e à arte: de maneira que não trabalham para eles na realidade mas para a sociedade que os criou e que os dispensa de qualquer outro contingente. A sociedade pode passar sem prosa e sem versos, música e pintura, sem saber como está a lua ou a estrela polar; não pode passar um único dia sem comida ou alojamento.
Sem dúvida que o homem não vive só de pão; deve ainda, segundo o Evangelho, viver da palavra de Deus quer dizer, amar o bem e praticá-lo, conhecer e admirar o belo, estudar as maravilhas da natureza. Mas para cultivar a alma é preciso que comece por cuidar do corpo;
este último dever prevalece tanto pela necessidade como o outro pela nobreza. Se é glorioso encantar e instruir os homens também é honroso alimentámos. Portanto, quando a sociedade, fiel ao princípio da divisão do trabalho, confia uma missão de arte ou de ciência a um dos seus membros, permitindo-lhe deixar o trabalho comum, deve-lhe uma indemnização por tudo o que impede de produzir industrialmente, mas não lhe deve mais que isso. Se exigisse mais, a sociedade reduziria as suas pretensões a nada, represando os seus serviços. Então, para viver, é obrigado a entregar-se a um trabalho para o qual a natureza não o destinara, o homem de génio sentiria a sua fraqueza e abismar-se-ia na pior das existências.
Conta-se que uma célebre cantora ao pedir à imperatriz da Rússia, Catarina ll, vinte mil rublos, esta lhe respondeu: - É mais do que eu dou aos meus marechais-de-campo. - Vossa Majestade, replicou a outra, mande então cantar os seus marechais-de-campo.
Se a França, mais poderosa que Catarina II, dissesse a Raquel: Representará por 100 luíses ou tecerá algodão; a Duprez: Cantará por 2400 francos ou irá vindimar; pensam que a trágica Raquel e o cantor Duprez deixavam o teatro? Seriam os primeiros a arrepender-se.
Mademoiselle Raquel recebe, diz-se, da Comédia Francesa 60.000 francos por ano; para um talento como o seu é um honorário baixo. Porque não 100.000, 200.000? porque não uma subscrição pública? Que mesquinhez! Será que se negoceia com uma artista como mademoiselle Raquel?
Respondem que a administração não poderia dar mais senão perdendo; que concordam com o talento superior da jovem sócia; mas que ao regular as contas foi preciso considerar também a lista das receitas e despesas da companhia.
Tudo isso é justo mas tudo confirma o que eu disse e repito: que o talento de um artista pode ser infinito mas que as suas pretensões mercenárias estão necessáriamente limitadas; por um lado pela utilidade que produz à sociedade que o assolaria; por outro pelas possibilidades dessa mesma sociedade; noutros termos, o que o vendedor pede está nivelado pelo direito do comprador.
Mademoiseille Raquel, diz-se, proporciona ao Teatro Francês mais de 60.000 francos de receita.
Sem comentários:
Enviar um comentário