domingo, março 14, 2010

O NEGRO E O VERMELHO

Assim, em qualquer troca, há a obrigação moral de nenhum dos contratantes ganhar algo em detrimento do outro; quer dizer que o comércio, para ser legítimo e verdadeiro, deve estar isento de toda a desigualdade; é a primeira condição de comércio. A segunda condição é que seja voluntário, quer dizer, que as partes transijam com liberdade e pleno conhecimento.
Defino, pois, o comércio ou a troca, como um acto de sociedade.
O negro que vende a mulher por uma faca, os filhos por bolas de vidro e ainda a si próprio por uma garrafa de aguardente não é livre. O mercador de carne humana com quem negaceia não é o seu associado, é o seu inimigo.
O operário civilizado, que dá o seu trabalho por um bocado de pão, que constrói um palácio para dormir numa estrebaria, que fabrica os tecidos mais ricos para usar andrajos, que produz tudo para abdicar de tudo, não é livre. Não sendo seu associado pela troca de salário e de serviços, o patrão para o qual trabalha é seu inimigo.
O soldado que serve a pátria por medo em vez de a servir por amor não é livre; os seus camaradas e os seus chofes, ministros ou órgãos da justiça militar, são todos seus inimigos.
O camponês que arrenda terras, o industrial que empresta capitais, o contribuinte que paga impostos, gabelas, patentes, licenças. pessoais, mobiliários, etc., e o deputado que as vota não têm inteligência nem liberdade nos seus actos. Os seus inimigos são os proprietários, os capitalistas, o governo.
Restituam aos homens a liberdade, iluminem-lhes a inteligéncia, a fim de que conheçam o sentido dos seus contratos e vereis presidir às suas trocas a mais perfeita igualdade sem qualquer consideração pela superioridade dos talentos e cultura; e reconhecereis que na ordem das ideias comerciais, quer dizer, na esfera da sociedade, a palavra superioridade não tem sentido.
Se Homero me canta os seus versos, escuto o seu génio sublime. A seu lado, qual simples pastor, qual trabalhador humilde, nada sou. Com efeito, se compararem obra com obra, o que são os meus queijos e os minhas favas junto de uma llíada? Mas se, por salário do seu poema inimitável, Homero me quiser tirar tudo o que tenho e fazer de mim seu escravo renuncio ao prazer dos seus cantos e agradeço-lhe.
Posso passar sem a llíada e esperar, se for preciso, pela Eneida; Homero não pode passar vinte e quatro horas sem os meus produtos. Que aceite então o pouco que tenho para lhe oferecer e que a sua poesia me instrua, me encoraje e console.
Quê! dirão, tal será a condição do que cantou os homens e os deuses! a esmola, com as suas humilhações e sofrimentos! que bárbara generosidadel... - Não se indignem, peço-vos: a propriedade faz do poeta um Creso ou um mendigo; só a igualdade sabe honrá-lo e aplaudi-lo: De que se trata? De regular o direito do que canta e o dever do que escuta. Ora observem isto, muito importante para a solução deste assunto: ambos são livres, um de vender, o outro de comprar; a partir daí as respectivas pretensões nada contam e a opinião justa ou exagerada que possam ter, um dos seus versos, o outro da sua liberalidade, não pode influir nas condições do contrato. Não é na consideração do talento mas na dos produtos que devemos procurar os motivos da nossa arbitragem.
Para que o canto de Aquiles obtenha a recompensa que lhe é devida, é preciso, então, que comece por se fazer aceitar: posto isso, sendo a troca dos seus versos contra um honorário um acto livre, deve ser, ao mesmo tempo, um acto justo, quer dizer que o honorário do poeta deve ser igual ao seu produto. Ora qual é o valor desse produto?
Suponho primeiro que a Ilíada essa obra-prima que se trata de retribuir equitativamente, seja na verdade de um preço infinito; não se poderia exigir mais. Se o público, que é livre de fazer a aquisição, se recusa a comprá-la, é claro que, não podendo o poema ser trocado, o seu valor intrínseco não ficará diminuído, mas o seu valor de troca ou a sua utilidade produtiva está reduzida a zero, é nula. Então, é entre o infinito de uma parte e o nada da outra, a igual distância dos dois, visto que todos os direitos e todas as liberdades querem ser igualmente respeitadas, que devemos procurar a cota do salário a atribuir; noutros termos, não é o valor intrínseco mas o valor relativo da coisa vendida que se trata de fixar. A questão começa a simplificar-se: qual é agora esse valor relativo? que tratamento merece ao seu autor um poema como a llíada?
O problema era, Segundo as definições, o primeiro que a economia política teria a resolver; ora não só não o resolveu como o declarou insolúvel.

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