
Abaixo a declaração perante o Tribunal de Turim de um dos anarquistas detidos em 23 de fevereiro pela Digos (a polícia antiterrorismo italiana), durante uma mega operação policial na cidade. Outros dois anarquistas também foram presos nesta intervenção. Os fatos alegados para as prisões estavam conectados a episódios ligados às lutas e mobilizações contra a política de imigração do governo italiano e os centros de detenção de imigrantes. Recentemente os três anarquistas foram julgados e libertados com algumas restrições, como não deixar a cidade e assinar regularmente um termo de compromisso numa delegacia.
A maioria dos acusados neste julgamento são anarquistas, e acusar anarquistas de “instigação à prática de um crime” é uma tarefa bastante fácil, tanto como atirar sobre a Cruz Vermelha.
Levando consigo um sentido de justiça e liberdade que nada tem a ver com a lei, cada anarquista faz da sua vida um contínuo convite a lutar contra a injustiça, e, portanto a violar as leis que produzem essa injustiça: a vida de cada anarquista é uma longa e reiterada “instigação à prática de um crime”.
Aguardando com esperança por um qualquer passo legal que declare finalmente que os anarquistas pelo simples fato de serem anarquistas são criminosos, aqueles que hoje nos acusam são compelidos a provar que alguém, do lado de fora, levou os presos nos centros de detenção de migrantes por toda a Itália a revoltarem-se semana após semana durante os últimos dois anos, causando milhares de euros de danos e perturbando o mecanismo de expulsão. E essas mesmas pessoas têm de descobrir uma prova qualquer que seja de que este “instigador” está hoje sentado no banco dos acusados.
Esta prova não se consegue encontrar em nenhum dos mandatos de detenção que nos foram emitidos. E não se consegue encontrar porque nunca houve qualquer “instigação”, e não foi necessário nem teria sido correto que essa instigação ocorresse. Antes de mais nada, porque as pessoas não precisam de apelos nem de frases incendiárias para se revoltarem. Pelo contrário, é a injustiça que origina conflitos, que por sua vez podem conduzir a revoltas.
E aqui está a injustiça, uma injustiça que é bastante evidente. Querem que pessoas que arriscaram tudo o que tinham para conseguirem chegar às nossas cidades sejam expulsas, de bico calado. Ou que pessoas exploradas durante anos em campos, terrenos de cultivo ou cozinhas de restaurantes finos se deixem atirar fora. Ou que aqueles que aqui chegaram ainda crianças e não têm ninguém à sua espera nos países de origem se deixem também ser deportados. E como se tudo isto não bastasse para gerar conflito, no interior dos centros de detenção pessoas sem documentos são privadas de tudo, reduzidas a um mero corpo deixado para morrer por falta de tratamento médico ou por desespero, um corpo para ser espancado ou abusado sexualmente – especialmente quando são mulheres que estão envolvidas.
Se tudo isto é verdade – e descobrirão que o é nas próprias páginas deste mesmo julgamento –, o conflito nos centros de detenção de migrantes é não só natural como é o único instrumento através do qual os imigrantes presos conseguem reafirmar o seu humanismo, um fato que de outra forma lhes é negado.
Por esta razão, os migrantes não precisaram esperar por nós nem por ninguém que começasse a lutar e a tentar escalar ou destruir aqueles muros. E não pararam de fazê-lo agora, para embaraço de quem nos prendeu na esperança ridícula de levar paz aonde nunca poderá existir paz. Nunca houve a necessidade de uma “instigação” externa porque os métodos e modos da luta têm de ser autônomos, têm de refletir as experiências e conflitos daqueles que estão fechados à chave, têm de descobrir os seus próprios tempos e expressões. Não teria sido correto dizer: “agora façam greve de fome” ou “amanhã queimem alguns colchões” – como o procurador está estupidamente a defender.
Pelo contrário, aquilo que sempre dissemos foi: “estamos aqui”. Por outras palavras, oferecemos os nossos meios de informação e rede de contatos, encorajamos relações entre os vários centros de detenção em luta, chegamo-nos à frente para amplificar as vozes dos presos o melhor que conseguíssemos, promovemos as nossas iniciativas juntamente com as que tomavam lugar nos centros de detenção. Tudo isto pode certamente afetar o curso das coisas, mas chamá-lo de “instigação à prática de um crime” são tretas típicas da polícia Italiana, além de que é também quase uma ofensa para nós.
Para dizer toda a verdade, mesmo que vos soe estranho, foram os presos que nos “instigaram” ao longo destes meses, e fizeram-no de maneira bastante simples: revelando as suas histórias para que nós as pudéssemos contar, organizando-se em segredo para que fotografias de espancamentos e vídeos de cargas da polícia se tornassem conhecidas aqui fora, ensinando-nos que é possível subir a um telhado e gritar “liberdade!” mesmo que se saiba que a resposta vai ser um brutal espancamento. As aterradoras imagens de soldados a carregarem dentro das jaulas do centro de detenção de migrantes de Gradisca são imagens que nos forçam a fazer algo porque põem a nossa consciência entre a espada e a parede.
Assim sendo, o verdadeiro problema desta cidade não é “quem instiga quem”; o problema são aqueles que não se deixam ser instigados, aqueles que vêem e continuam como se não tivessem visto nada.
agência de notícias anarquistas-ana
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