terça-feira, abril 06, 2010

O NEGRO E O VERMELHO

Esses dois modos de suicídio são primeiro simultâneos; depressa, o primeiro recebe uma nova força do segundo, juntando-se a fome à usura para tornar o trabalho mais necessário e mais raro ao mesmo tempo.
Segundo os princípios do comércio e da economia política para que um empreendimento industrial seja bom é preciso que o seu produto seja igual: 1.º - Ao interesse do caipital; 2.º - Ao sustento desse capital: 3.º - À soma dos salários de todos os operários e empreendedores; e, além disso, é preciso, tanto quanto possível, que haja um benefício qualquer a realizar.
Observemos o génio fiscal e a astúcia da propriedade: o lucro toma nomes diferentes quantas vezes o proprietário pretende recebê-lo: 1.º - Sob forma de juro; 2.º - Sob a de benefícios. Diz ele que o juro dos capitais faz parte dos adiantamentos de fabrico. Se se empregaram 100.000 francos numa manufactura e, deduzidas as despesas, se recolhem por ano 5.000 francos, não se tem lucro, obtém-se apenas o juro do capital. Ora, o proprietário não é homem que trabalha para aquecer: parecido ao leão da fábula, um a um, usufrui todos os títulos, de maneira que depois de estar servido, nada fique para os associados.

Ego primam tollo, nominor quia leo:
Secundam quia sum fortis tribuetis mihi:
Tum quia plus valeo, me sequetur tertia:
Malo adficletur, sl qufs quartam tetigertt.

Não conheço nada mais bonito que esta fábula:

Sou empreendedor, fico com a primeira parte:
Sou trabalhador, fico com a segunda:
Sou capitalista, fico com a terceira:
Sou proprietário fico com tudo.

Em quatro versos, Fedra resumiu todas as formas da propriedade.
Digo que esse juro, com mais forte razão lucro, é impossível.
Que são os trabalhadores uns em relação aos outros? Membros diversos de uma grande sociedade industrial encarregues, cada um em particular, de uma certa parte da produção geral, segundo o princípio dA divisão do trabalho e das funções. Supunhamos primeiro que essa sociedade se reduz aos três indivíduos seguintes:
um criador de gado, um curtidor, um sapateiro. A indústria social consiste em fazer sapatos. Se eu perguntasse qual deve ser a parte de cada produto no produto da sociedade, o primeiro escolar que aparecesse responder-me-ia, por uma regra de comércio ou de companhia, que essa parte deve ser igual ao terço do produto. Mas não se trata aqui de nivelar os direitos de trabalhadores convencionalmente associados: é preciso provar que, associados ou não, os nossos três industriais são forçados a agir como se o estivessem; que, sejam ou não sócios, a força das coisas, a necessidade matemática os associa.
São necessárias três operações para produzir sapatos: a criação do gado, a preparação dos couros, o corte e a costura. Se o couro ao sair do estábulo do tratador vale 1, vale 2 ao sair da loja do curtidor, 3 ao sair da oficina do sapateiro. Cada trabalhador produziu um grau de utilidade; de maneira que associando todos os graus de utilidade produzida obtém-se o valor da coisa. Para ter uma quantidade qualquer dessa coisa é preciso, pois, que cada produtor pague primeiro o seu próprio trabalho, depois o trabalho dos outros produtores. Assim, para ter 10 de couro em sapatos, o tratador dará 30 do couro sem preparação e o curtidor 20 de couro curtido. Porque 10 de couro em sapatos valem 30 de couro cru pelas duas operações sucessivas que têm lugar, como 20 de couro curtido valem também 30 de couro cru pelo trabalho do curtidor. Mas que o sapateiro exija 33 do primeiro e 22 do segundo por 10 da sua mercadoria, a troca não se fará, porque logo, imediatante o tratador e o curtidor deveriam comprar por 11 o que eles próprios teriam dado por 10; é impossível.
Bem! no entanto, é isso que acontece todas as vezes que um benefício qualquer é realizado por um industrial, quer esse benefício se chame renda, juro ou lucro. Na pequena sociedade de que, falamos se o sapateiro pedir dinheiro a juros para obter os utensílios do seu ofício, comprar as primeiras peles de couro e viver algum tempo antes da entrada dos fundos, é claro que para pagar os juros desse dinheiro será obrigado a explorar o tratador e o curtidor; mas como esse benefício é impossível sem fraude, o juro cairá sobre o infeliz sapateiro e ele próprio o devorará.

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