Que peça perdão a Deus e aos homens, essa Igreja que se dizia infalível e que corrompeu a sua moral; que as suas irmãs reformadas se humilhem... e o povo, desiludido mas religioso e clemente, perceberá (1).
O desenvolvimeto do direito, nas suas diversas expressões, seguiu a mesma gradação que a propriedade nas suas formas; por todo a lado se vê a justiça arrastar o roubo à sua frente e encerrá-lo em limites cada vez mais estreitos. Até agora as conquistas do justo sobre o injusto, do igual sobre o desigual têm sido feitas apenas por instinto e pela força das coisas; mas o último triunfo da nossa sociabilidade será devido à reflexão, senão cairemos de novo num outro caos feudal: essa glória está reservada à nossa inteligência ou o abismo de miséria à nossa indignidade.
O segundo efeito da propriedade é o despotismo. Ora como o despotismo se liga necessariamente no espírito à ideia de autoridade legítima ao expor as causas naturais do primeiros devo dar a conhecer o princípio do segundo.
Que forma de governo vamos preferir ? - Eh! podeis perguntá-lo, responde, sem dúvida, algum dos meus leitores mais novos; sois republicano. - Republicano sim; mas essa palavra nada precisa. Res publica, é a coisa publica; ora quem quer que queira a coisa pública, sob qualquer forma de governo que seja, pode dizer-se republicano. Os reis também são republicanos. - Pois bem! sois democrata? - Não. - Qué! sereis monárquico? - Não. - Constitucionalista? - Deus me livre. - Sois então aristocrata? - Absolutamente nada.
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(1) «Anuncio o Evangelho, vivo do Evangelho», dizia o Apóstolo, querendo com isso dizer que vivia do seu trabalho: o clero católico preferiu viver da propriedade. São famosas as lutas das comunas da Idade Média contra os abades e bispos, grandes proprietários e senhores: as excomunhões papais, fulminadas pela defesa dos lucros eclesiásticos, não o são menos. Ainda hoje os órgãos oficiais do clero galicano sustentam que o ganho do clero não é um salário mas uma indemnização dos bens de que outrora era proprietário e que em 89 o terceiro estado lhe tirou. O clero prefere dever a sua subsistêncla ao direito de lucro que ao trabalho. Uma das principais causas da miséria em que a Irlanda está mergu!hada são os lucros imensos do clero anglicano. Assim heréticos e ortodoxos, protestantes o papistas nada têm a censurar-se: todos erraram igualmente na justiça, todos desconheceram o oitavo mandamento do Decálogo: Não roubarás.
- Quereis um governo misto? - Ainda menos. - Então que sois? - Sou anarquista.
- Estou a ouvir-vos: estais a brincar; dizeis isso dirigido ao governo. - De maneira nenhuma: acabais de ouvir a minha profissão de fé séria e maduramente reflectida; se bem que muito amigo da ordem, sou, em toda a acepção do termo, anarquista. Escutai-me.
Nas espécies de animais sociáveis «a fraqueza dos jovens é o princípio da sua obediência para com os velhos que já têm força; e o hábito, que para eles é uma espécie particular de consciência, é a razão pela qual o poder pertence ao mais velho, se bem que por sua vez se torne o mais fraco. Todas as vezes que a sociedade é conduzida por um chefe, esse chefe é quase sempre, com efeito, o mais velho do grupo. Digo quase sempre porque a ordem estabelecido pode ser perturbada por paixões violentas. Então, a autoridade passa para outro; e depois de novamente ter começado pela força conserva-se em seguida igual pelo hábito. Os cavalos selvagens andam em grupos; têm um chefe que vai à frente, que seguem com confiança, que Ihes dá o sinal da fuga e do combate.
«O carneiro que criámos segue-nos, mas também segue o rebanho no meio do qual nasceu. Vê no homem apenas o chefe do seu rebanho... Para os animais domésticos o homem é somente um membro da sua sociedade; toda a sua arte se reduz em se fazer aceitar por eles como associado; dentro em pouco torna-se chefe, sendo-lhes tão superior quanto o é pela inteligência. Portanto, não modifica o estado natural dos animais como o disse Buffon; pelo contrário, aproveita-se deste estado natural. Noutros termos, tinha encontrado os animais sociáveis; torna-os domésticos sendo seu associado, seu chefe. A domesticidade dos animais não é assim senão um caso particular, uma simples modificação, uma determinada consequência da sociabilidade. Todos os animais domésticos são, por natureza, animais sociáveis...» (Flourens, Resumo das observações de F. Cuvier.)
Os animais sociáveis seguem um chefe de instinto; mas reparemos no que F. Cuvier se esqueceu de dizer, que o papel desse chefe é todo de inteligência. O chefe não ensina os outros a associarem-se, a reunirem-se sob o seu comando, a reproduzirem-se, a fugirem e a defenderem-se: em cada um desses casos os subordinados são tão sábios quanto ele.
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