quinta-feira, maio 13, 2010

O NEGRO E O VERMELHO

Mas é o chefe que, pela experiência adquirida, se precavê do imprevisto; é ele a inteligência privada que complementa o instinto geral nas circunstâncias difíceis; é ele quem delibera, decide, conduz; é dele, numa palavra, a prudência esclarecida que governa a rotina nacional, para maior bem de todos.
O homem, vivendo naturalmente em sociedade., segue também naturalmente um chefe. No princípio esse chefe é o pai, o patriarca, o velho, quer dizer, o homem íntegro, o sábiio cujas funções, por consequência, são todas de reflexão e inteligência. A espécie humana, como as outras raças de animais sociáveis, tem os seus instintos, faculdades inatas, ideias gerais, categorias do sentimento e da razão: os chefes, legisladores ou reis, nunca inventaram nada, supuseram ou imaginaram; apenas guiaram a sociedade segundo a experiância adquirida mas sempre respeitando as opiniões e crenças.
Os filósofos que, dando à moral e à história o seu sombrio humor de demagogos, afirmam que o género humano, no princípio, não teve chefes nem reis, nada sabem da natureza do homem. A realeza e a realeza absoluta é, também e mais que a democracia, uma forma primitiva de governo. Porque se vêem, desde os tempos mais recuados, heróis, salteadores, aventureiros, ganharem coroas e tornarem-se reis; confundem-se essas duas coisas, a realeza e o despotismo: mas a realeza provém da criação do homem; subsistiu nos tempos de comunidade negativa; o heroismo, e o despotismo que origina, só começou com a primeira deter-minação da ideia de justiça, quer dizer, com o reino da força. Desde que o mais forte foi julgado melhor por comparação de méritos, o antigo teve que lhe ceder o lugar e a realeza tornou-se despótica.
A origem espontânea, instintiva, e por assim dizer, fisiológica da realeza, deu-lhe ao princípio um carácter sobre-humano; os povos relacionaram-na aos deuses de que, diziam, descendiam os primeiras reis: daí as genealogias divinas das famílias reais, as incarnações dos deuses, os fracos messias; daí as doutrinas de direito divino que ainda conservam tão singulares campeões.
A realeza foi primeiramente efectiva; numa altura em que o homem pouco produzia, a realeza nada possuía; a propriedade era demasiado fraca para dar a ideia de hereditariedade e garantir ao filho a realeza do pai:
mas logo que se arrotearam os campos e construíram cidades cada função foi apropriada, como qualquer outra coisa; daí as realezas e sacerdócios hereditários; daí a hereditariedade levada até às profissões mais vulgares, circunstãncia que originou as distinções de castas, o orgulho da classe, a abjecção da rotura e que confirma o que eu disse sobre o princípio de sucessão patrimonial, que é um modo indicado pela natureza de prover às funções vagas e perfazer uma obra começada.
De vez em quando a ambição fez surgir usurpadores, suplantadores de reis, o que deu lugar a chamar a uns reis de direito, reis legítimos, e tiranos aos outros. Mas não é preciso que os nomes se imponham: houve reis execráveis e tiranos bem suportáveis. Toda a realeza pode ser boa quando é a única forma possível de governo; legitima nunca o é. Nem a hereditariedade, nem a eleição, nem o sufrágio universal, nem a excelência do soberano, nem a consagração da religião e do tempo fazem a realeza legítima. Sob qualquer forma que se apresente, monárquica, obligárquica, democrática, a realeza ou o governo do homem pelo homem, é ilegal e absurdo.
O homem procura a regra para alcançar a mais pronta e perfeita satisfação das suas necessidades: ao princípio essa regra é para ele viva, visível e tangível; é o pai, o professor, o rei. Quanto mais ignorante é o homem mais absoluta é a obediência e confiança no guia. Mas o homem, cuja lei é conformar-se à regra, quer dizer, descobri-ia pela reflexão e raciocínio, o homem raciocina sobre as ordens dos chefes: ora um tal raciocínio é um protesto contra a autoridade, um começo de desobediência. A partir do momento em que o homem procura os motivos da vontade soberana o homem fica revoltado. Se já não obedece porque o rei manda mas sim porque o rei prova pode-se afirmar que daí para a frente já não reconhece nenhuma autoridade e que fez de si mesmo o seu próprio rei. Infeliz do que ousar conduzi-lo e não lhe oferecer senão o respeito de uma maioria por sanção das suas leis: porque cedo ou tarde a minoria se fará maioria e o déspota imprudente será derrubado e todas as suas leis abolidas.
À medida que a sociedade se esclarece a autoridade real diminui: é um facto que a história inteira testemunha.

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