terça-feira, junho 08, 2010

O NEGRO E O VERMELHO

DO PRINCÍPIO FEDERATIVO

Tradução, notas críticas, estudo introdutório,cronologia da Vida e Obra e bibliografia de Francisco Trindade

APRESENTAÇÃO

I
Este trabalho agora apresentado ao juízo crítico do leitor foi realizado em tempo relativamente curto. Bastou um escasso meio ano para que todo este estudo fosse materializado. Para isso contribuíram duas ordens de factores: em primeiro lugar, o conhecimento da vida e obra de Proudhon por parte do autor, que o tem intelectualmente ocupado nos últimos dez anos e seguramente o vai continuar a ocupar nos próximos. Em segundo lugar, as preciosas ajudas que lhe foram prestadas, por um naipe de pes¬soas que merecem, pela sua dedicação, serem aqui nomeadas: o Dr. Ade¬lino Cardoso, da Direcção da Colibri, que com lucidez compreendeu a importância da tradução de Proudhon e para esse efeito me deu carta branca para além de ter dado um contributo valioso na revisão do texto; Diamantino Gordino pela tradução e processamento de texto, Dr. Miguel Soromenho pelas sessões de tradução, Drª. Laurentina Capela tradução e «Lexis», Drª. Fátima Vasconcelos tradução do latim, João José Gordino impressão do texto e finalmente à Société Proudhon e especialmente à sua Secretária Geral Drª. Chantal Gaillard pelo incentivo. De todas as possíveis faltas existentes, sou obviamente, o único responsável.

II
O Princípio Federativo teve uma primeira tradução em português em 1874, embora incompleta, pois só a primeira parte conheceu a língua de Camões. O tradutor, A. J. Nunes Junior, deu¬ lhe o título de «Do Princí¬pio de Federação» e segue a tradução castelhana de 1872 de Pi y Mar¬gall , o grande responsável pela divulgação do pensamento de Proudhon no país da C.N.T. e tradutor de várias das suas obras.
Apesar da tradução portuguesa de Nunes Junior ser fraca e desprovida de qualquer tipo de notas, não deixa de ter a sua importância histórica. Por esse motivo apresentamos aqui, sem qualquer alteração, o pequeno prefá¬cio que abre a obra de 1874:
«A parte da população portugueza mais interessada no conheci-mento das doutrinas de Proudhon é exactamente aquella que o não póde ler no original. Costumado a ouvir chamar¬ lhe commu-nista, juram, por assim dizer, na fé dos padrinhos e d'este modo se perpetúa um erro a tantos respeitos lamentavel. O Principio Fede-rativo livro notavel pelo rigor mathematico e pela clareza de ex-po¬sição, comprehende uma parte de interesse exclusivamente fracez e outra de polemica jornalistica, que, notavel como amostra de logica e de bom senso, tem perdido o valor da actualidade, para aquelles a quem dedicamos a presente tradução. A esses damos o Principio de Federação, onde a theoria do systema federativo está cla¬ramente exposta e sustentada. Como só aos humildes nos diri¬gi¬mos, oxalá que n'elles possamos despertar o interesse pelo co¬nhe¬cimento do nome e das doutrinas do grande publicista francez»
O Princípio Federativo, livro saído em Fevereiro de 1863 no editor Dentu de Paris, tem 324 páginas na edição original. Ignoramos a tiragem inicial, mas sabemos por uma carta de Proudhon que no dia 5 de Março de 1863, ou seja, somente uma quinzena de dias após a sua saída, o livro já estava no seu sexto milhar. Compreende um prefácio e uma conclusão e trinta e um capítulos agrupados em três partes: primeira parte – «Do Princípio de Federação» (onze capítulos); segunda parte – «Política Unitária» (onze capítulos); terceira parte; «A Imprensa Unitária» (nove capítulos). O subtitulo: Da necessidade de reconstruir o partido da Revolução é a sobrevivência da intenção inicial, que se queria essencial¬mente prática e mobilizadora; o título cobre, ao contrário, o tratado teórico resultante de modificações ulteriores.
Também é igualmente verdade que o livro é importante porque é o pri¬meiro – e permanece o principal – daqueles que trataram o Federalismo não somente, enquanto sistema de ultrapassagem das soberanias, mas como princípio geral de organização da sociedade. A esse título Proudhon tinha razão ao afirmar que tinha dado aí a «sua definição de República, definição que ficou no estado de desideratum , tão pouco conhecida ainda que os próprios Suíços e Americanos não tiveram até aqui senão uma consciência bastante imperfeita do seu próprio estado» .
É esta íntima convicção de ter produzido uma obra profundamente original, ocupando o seu lugar no pequeno número das grandes teorias políticas, que o fará escrever «... acabo enfim de terminar uma verdadeira exposição filosófica do princípio federativo, uma das coisas mais fortes e novas que produzi» .

1 MARGALL, Pi y – El Principio Federativo, Madrid, Librería de Alfonso Duran, 1872, 171 p.

2 Em latim, no original. Desiderato.

3 «définition de la République, définition restée à l'état de desideratum, si peu connue encore que Suisses et Américains eux-mêmes n'ont eu jusqu'ici qu'une conscience fort imparfaite de leur propre état.»
Carta a Buzon do dia 31 de Janeiro de 1863, Cor. XII – 269. Um agradecimento es¬pe-cial ao Carvalho Ferreira amigo e professor no Instituto Superior de Economia e Gestão que facilmente compreendeu a importância da Correspondência proudhoniana e enquanto responsável pela Biblioteca Geral tratou de adquirir os 14 volumes de cartas que a constituem, tornando esta Biblioteca a única do País a possuir esta obra fundamental para o estudo e compreensão da filosofia proudhoniana.

4 «... je viens enfin de terminer une véritable exposition philosophique du príncipe fédératif, une des choses les plus forts et les plus neuves que j'ai produites.»
Carta a Bergmann do dia 12 de Fevereiro de 1863, Cor. XII – 291.

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