Tudo isto, confesso¬ o, não tem talvez nada de novo, e mais de um lei¬tor me perguntará se é tudo o que tenho para lhe ensinar. Ninguém nega nem a Natureza nem o Espírito, mesmo com a obscuridade que os possa envolver; não há um só jornalista que se pronuncie contra a Autoridade ou a Liberdade, mesmo se a sua conciliação, a sua separação e eliminação parecem igualmente impossíveis. Onde quero então chegar, debatendo este lugar comum?
Vou dizê¬ lo: é que todas as constituições políticas, todos os sistemas de governo, incluíndo o federalismo, podem resumir¬ se a esta formúla, o Equilíbrio da autoridade pela liberdade e vice¬ versa; é devido a isso que as categorias adoptadas desde Aristóteles pela imensidão dos autores e com a ajuda dos quais os governos se classificam, os Estados se diferen¬ciam, as nações se distinguem, monarquia, aristocracia, democracia, etc., neste caso exceptuando o federalismo, reduzem¬ se a construções hipotéti¬cas, empíricas, nas quais a razão e a justiça não obtêm senão uma satisfa¬ção imperfeita; é que todos estes estabelecimentos, fundados sobre as mesmas coordenadas incompletas, diferentes somente pelos interesses, os pressupostos, a rotina, no fundo assemelham¬ se e equivalem¬ se; é que deste modo se não fosse o mal estar causado pela aplicação desses falsos sistemas, e cujas paixões irritadas, interesses ofendidos, amores próprios decepcionados se acusam mutuamente, nós estaríamos quanto ao essencial das coisas, muito próximos de um entendimento; é, por último, que todas estas divisões de partidos entre as quais a nossa imaginação cava abismos, todas estas divergências de opinião que nos parecem insolúveis, todos estes antagonismos de sorte que nos parecem sem remédio, encon¬trariam de repente a sua equação definitiva na teoria do governo federa¬tivo.
Quantas coisas, direis vós, numa oposição gramatical: AUTORI-DADE¬ Liberdade!... – Pois bem! sim. Reparei que as inteligências comuns, que as crianças apreendem melhor a verdade transportada para uma fórmula abstracta que desenvolvida num volume de dissertações e de factos. Quis ao mesmo tempo resumir este estudo para aqueles que não podem ler livros, e tornᬠlo mais peremptório trabalhando com noções simples. AUTORIDADE, Liberdade, duas ideias opostas uma à outra, condenadas a viver em luta ou a desaparecer juntas: eis algo certamente que não é difícil. Tenha tão só a paciência de me ler, leitor amigo, e se compreendeu este primeiro e curto capítulo, depois me dirá o seu parecer.a)
a)Proudhon formula neste primeiro capítulo uma antinomia cuja existência é indubi¬tável. Não procura uma síntese para a resolver à boa maneira da tricotomia hegel¬ia¬na, mas tão- só equilibrá-la, contrapesar os dois termos antitéticos. Como se verá, não obstante, chegará pelos dois caminhos ao mesmo ponto, ao contrato, solução que já havia apresentado na obra de 1851 Idée Générale de la Révolution dans le XIX siècle. (N.T.)
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