domingo, julho 25, 2010

O NEGRO E O VERMELHO

A democracia gritou bravo! à expedição à Lombardia: a guerra à Áustria, segundo ela, era ainda a Revolução. Examinaremos tudo isso na altu¬ra. Mas posso dizer desde já que sem a democracia, que deu por assim dizer o exequaturg) o pedido de Orsini, Napoleão III teria muito provavelmente evitado lançar¬se nessa aventura, ao serviço da qual nós gastámos, pelos óculos do Sr. Cavour, 500 milhões e quarenta mil homens.
A democracia, depois de ter censurado a intervenção do governo nos assuntos do México, quis a expedição actual, à qual o governo imperial teria talvez renunciado, sobre a moção de Jules Favre, se ele tivesse visto este orador energicamente apoiado pelos jornais. Mas não: a imprensa democrática pretendeu que, mesmo depois de ter reconhecido que ele tinha sido induzido em erro sobre os sentimentos da população mexicana, o governo não podia, depois de um insucesso, tratar com honra senão no México. Era ainda a Revolução que nos chamava ao México? Nunca. Os mexicanos procuravam constituir¬se em república federativa; eles não querem nenhum príncipe, tão pouco alemão como espanhol; e acontece que o seu actual presidente, Juarez, é o mais capaz, o mais honesto e o mais popular que eles tiveram. Republicanos dignos desse nome teriam compreendido que a verdadeira dignidade de um governo tão forte como o nosso, consistia em reconhecer o seu erro, mesmo depois de um insucesso, e teriam insistido na retirada. Mas a república, como a entendem os nossos democratas, tem horror ao federalismo, comichosa sobretudo sobre o ponto de honra.
A democracia, com efeito, é essencialmente militarista; sem ela seria de facto uma política pretoriana. Os seus oradores e os seus escritores podem comparar¬ se aos veteranosh) do primeiro Império, sempre a criticar os empreendimentos do grande homem, no fundo devotados de corpo e alma aos seus projectos, sempre prontos a defendê¬lo, com o braço, o pensamento e o coração. Em vão lhes demonstrais que os exércitos permanentes não são para o povo mais que instrumentos de opressão e objetos de desconfiança; em vão lhes fazeis ver, por razões e por números, que as conquistas não servem absolutamente nada para a fortuna das nações, que as anexações custam mais do que rendem; em vão lhes provais que o próprio direito da guerra, o direito da força, se fosse aplicado na sua verdade, concluiria na cessação da guerra e em todo outro emprego da força. Eles não ouvem desse lado: Napoleão I, dizem eles, foi a espada da Revolução. Mas a espada tem também o seu mandato revolucionário, que está longe de ser cumprido!
A democracia deu as mãos à livre¬ troca, cuja brusca aplicação, se se fizessem as contas, equivaleria a uma dessas gloriosas campanhas do primeiro Império que coroava invariavelmente um novo apelo de homens e dinheiro. Desta forma, com todas as nossas ousadias, estamos a reboque da Inglaterra, ora para a guerra com a Rússia, ora para a livre¬troca, ora para a unidade italiana. Os nossos patriotas seriam menos capazes em relação à teoria de Cobden, o sonho de Bastiat, o capricho do Sr. Jean Dolfus, a fixação do Sr. Chevalier, que tão felizmente já cavalgou a questão do ouro? A livre¬troca, com efeito, a guerra aos monopólios em massa, não é também a Revolução?... Nunca esses poderosos argumenta¬dores conseguirão compreender que a massa dos monopolizadores de um país é a massa da nação, e que ao fazer a guerra a essa massa, existe sempre um grave perigo, quando não houver uma soberana iniquidade .

g) Em latim, no original. Exame. (N.T.)
h) Soldados da velha guarda em Roma. (N.T.)
34) Últimamente um industrial de fiação, diante de quem se deplorava, sob o ponto de vista do interesse francês, a guerra da América, disse que essa guerra, na qual toda a gente via uma calamidade, seria para o nosso comércio e indústria um benefício. – Como assim? – É que, acrescentou, a Inglaterra que tem falta como nós de matérias primas, guarda para ela mesma as suas mercadorias, e durante esse tempo os nossos produtores e negociantes poderão colocar¬ se de prevenção e levar¬ lhe a melhor. – Que elogio à livre¬ troca!

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