segunda-feira, julho 26, 2010

O NEGRO E O VERMELHO

CAPÍTULO III

Monograma Democrático, a Unidade

A democracia dá¬se por liberal, republicana, socialista mesmo, no bom e verdadeiro sentido da palavra, bem entendido, como dizia Sr. de Lamartine.
A democracia impõe¬se por si mesma. Ela nunca compreendeu o trinómio revolucionário, Liberdade¬Igualdade¬Fraternidade, que em 1848, como em 1793, ela tinha sempre na boca, e do qual fez tão belas insígnias. A sua divisa, definitivamente adoptada, é num só termo, UNIDADE.
Para compreender a Liberdade, com efeito, sobretudo a Igualdade, para sentir como homem livre a Fraternidade, é preciso toda uma filosofia, toda uma jurisprudência, toda uma ciência do homem e das coisas, da sociedade e da sua economia. Quantos se resignam a semelhantes estudos?... Ao passo que com a UNIDADE, coisa física, matemática, que se vê, se toca e se conta, sabemos tudo num instante. ɬse mesmo dispensado, nos casos difíceis, de raciocinar. Com a UNIDADE, a política reduz¬se a um simples mecanismo com o qual nada mais há a fazer que girar o vo¬lante. Tanto pior para quem se deixa prender na engrenagem: não era verdadeiramente um homem político, era um intruso, justamente punido pela sua ambiciosa vaidade.
Quem diz liberdade, na língua do direito público, diz garantia: garantia de inviolabilidade da pessoa e do domicílio, garantia das liberdades municipais, corporativas, industriais; garantia das formas legais, protectoras da inocência e da livre defesa. Como conciliar tudo isso com a majestade governamental, tão cara à democracia, com a UNIDADE? Foi a democracia, são os seus cabecilhas e os seus órgãos que, em 1848, instituíram os conselhos de guerra, organizaram as visitas domiciliárias, encheram as prisões, decretaram o estado de sítio, executaram a transportação sem julgamento dos trabalhadores brancos, como o Sr. Lincoln decreta hoje a trans-portação sem julgamento dos trabalhadores negros. A democracia faz baixo preço da liberdade individual e do respeito das leis, incapaz de governar sob outras condições que não as da Unidade, que não é outra coisa senão o despotismo.
Quem diz república ou igualdade dos direitos políticos, diz independência administrativa dos grupos políticos de que se compõe o Estado, diz sobretudo separação de poderes. Ora, a democracia é antes de mais cen¬tralizadora e unitária; ela tem horror ao federalismo; ela perseguiu sem limites, sob Luís¬Filipe, o espírito de bairro; ela olha a indivisão do poder como a grande força, a âncora de salvação do governo: o seu ideal seria uma ditadura dobrada de inquisição. Em 1848, quando a revolta murmurava na rua, rapidamente ela se apressou a reunir, nas mãos do general Cavaignac, todos os poderes. Porquê, pergunta¬se ela, ter mudado o mecanismo governamental? O que a monarquia absolutista fez contra nós, façamo¬lo contra ela e os seus partidários: para isso não necessita¬mos em nada de mudar de baterias; é suficiente voltar contra o inimigo os seus próprios canhões. A Revolução não passa disso.
Quem diz socialismo, no bom e verdadeiro sentido da palavra, diz naturalmente liberdade de comércio e de indústria, mutualidade de segu¬rança, reciprocidade de crédito, proporcionalidade de imposto, equilíbrio e segurança das fortunas, participação do operário nos sucessos das empresas, inviolabilidade da família na transmissão hereditária. Ora, a demo¬cracia tende fortemente para o comunismo, fórmula económica da unidade: é somente pelo comunismo que ela concebe a igualdade. O que ela precisa, são máximos: os empréstimos forçados, os impostos progressivos e sumptuários, com acompanhamento de instituições filantrópicas, hospícios, asilos, creches, tontinas, oficinas nacionais, caixas de poupanças e socorro, todos os acessórios do pauperismo, toda a panóplia da mi¬séria. Ela não gosta do trabalho à empreitada; chama o crédito gratuito de loucura; tremeria diante de um povo de operários instruídos, sabendo igualmente pensar, escrever, usar a picareta e a plaina, e cujas mulheres soubessem não precisar de criadas nas suas casas. Sorri ao imposto sucessório, que, demolindo a família, tende a colocar a propriedade nas mãos do Estado.
Em resumo, quem diz liberdade diz federação, ou não diz nada;
Quem diz república, diz federação, ou não diz nada;
Quem diz socialismo, diz federação, ou ainda não diz nada.
Mas a democracia, tal como se manifestou desde há quatro anos, não é nada, nada pode e nada vale daquilo que produz a Federação, que pressu¬põe o Contrato, que exige o Direito e a Liberdade. A Democracia tem por princípio a unidade; o seu fim, é a unidade; o seu meio, a unidade; a sua lei, sempre a unidade. A unidade é o seu alfa e o seu omega, a sua fórmula suprema, a sua última razão. Ela é toda unidade e nada senão unidade, como o demonstram os seus discursos e os seus actos; quer dizer que ela não sai do absoluto, do ilimitado, do nada.
É por isso que a Democracia, que sente o seu vazio e se assusta com a sua fraqueza; que tomou um acidente revolucionário como a própria ideia da Revolução, e de uma forma passageira de ditadura fez um dogma, essa velha democracia de 1830 renovada de 93, é acima de tudo pelo poder forte, hostil a qualquer autonomia, invejosa do Império que acusa de lhe ter deturpado a política, mas do qual se compromete a cantar¬ nos a ária, como o Sr. Thiers dizia do Sr. Guizot, com variações e sem desafinar.
Nada de princípios, nada de organização, nada de garantias; somente unidade e arbitrário, o todo decorado com nomes de Revolução e Sal¬vação pública: eis a profissão de fé da democracia actual. Desde 1848 que eu repetidas vezes a compeli a apresentar o seu programa, e não obtive uma palavra. Um programa! écomprometedor, sem segurança. Com que cara esta democracia, vazia de ideias, que no dia seguinte ao golpe de sorte que a levaria ao poder se tornaria, como todos os governos seus anteces¬sores, conservadora, com que cara, dizia eu, declinaria ela hoje a respon-sabilidade de empreendimentos aos quais reconheço que ela não pôs a mão, mas que teria executado da mesma maneira e que cobriu com a sua aprovação?

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