sábado, agosto 21, 2010

EMBALAGENS ENGANADORAS NA ECONOMIA

O saudável entendimento positivista da ciência gosta de invocar sobretudo factos, factos, factos – e nada mais. Mas a mera contagem de feijões já é questionável porque, precisamente na economia, não há sequer a certeza de existirem todos os feijões contados. A forma mais primitiva, é claro, são as falsificações directas da contabilidade, perante as quais não recuaram, especialmente em tempos de crise, nem os bancos nem as empresas nem os Estados, como se viu nos últimos tempos. E, no que diz respeito às estatísticas oficiais, já Churchill dizia, como é sabido, não confiar em nenhuma que ele próprio não tivesse forjado. Mas, regra geral, a distorção da realidade empírica acontece de forma plenamente legal. Basta modificar os critérios de recolha dos números.

Nos E.U.A. e não, só as normas de contabilidade foram adaptadas, na crise financeira, para os bancos poderem facilmente parquear os seus activos tóxicos em sociedades constituídas para o efeito. O "sistema bancário sombra", que o economista americano Roubini descreveu e pretendeu em parte responsabilizar pela crise, não foi desmantelado, pelo contrário, foi até reforçado. O mesmo vale para as finanças públicas. Uma massa considerável da dívida encontra-se latente em "orçamentos sombra", que não são mostrados. Um truque semelhante tem sido usado nas estatísticas do desemprego. Todos os anos os métodos de recolha são reformulados. Uma parte do milagre no mercado de trabalho da RFA deve-se ao facto de recentemente os desempregados atendidos pelas agências privadas de emprego simplesmente terem deixado de ser contabilizados.

Mas, mesmo sendo os números certos, eles podem ser belamente coloridos pela interpretação. Relativamente ao produto interno bruto, nem números absolutos nem percentagens relativas de crescimento dizem nada, se os valores de referência forem escondidos. No caso do crescimento, ele depende do nível inicial. Na Europa de Leste festejaram-se altas taxas de crescimento de 7 por cento e mais. Que grande coisa, depois de a queda do bloco soviético ter levado a uma desindustrialização devastadora. Além disso, o crescimento após a queda foi largamente impulsionado através de endividamento em moeda estrangeira (euro, dólar, franco suíço), revelando-se hoje extremamente frágil.

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