quarta-feira, agosto 25, 2010

Fundamentos

Uma dificuldade que sinto no dialogo com alguns crentes é o desentendimento acerca do que é esse diálogo. Já disseram que o diálogo implica «abdicar das minhas ideias e do que penso para acolher livremente as ideias e pensamentos do outro», o que me parece desnecessário. Preciso perceber o que o outro diz, obviamente, mas não preciso abdicar do que penso para “acolher” coisa alguma. E já me pediram para «apontar a pretensa "falta de fundamento" [de] teses sobrenaturais», sugerindo que que a noção de fundamento não ficou clara.

Um diálogo é uma troca de ideias entre pessoas que defendem posições contrárias ou entre uma pessoa que defende algo do qual a outra não está convencida. Se o diálogo for racional terá sucesso quando encontrarem razões para concordar numa conclusão ou, não sendo possível, quando descobrirem as divergências fundamentais que não podem resolver. No primeiro caso, os intervenientes aceitam um conjunto de premissas e uma linha de inferência que os conduz à conclusão, que até pode ser diferente das suas posições iniciais. Esta situação é comum na ciência, onde a crítica mútua e a recolha de dados levam muitas vezes a algo novo. Que o electrão não é só onda nem só partícula, por exemplo.

O segundo desfecho ocorre em algumas questões de valor. Se um prefere chocolate e o outro baunilha terão uma diferença fundamental que não podem resolver, pois não há nenhuma razão que possa ser invocada para fundamentar alguma destas preferências. Pode-se discutir gostos, mas com estas limitações. No entanto, em questões factuais isto não acontece sem se sair do diálogo racional, porque alegar algo como facto exige sempre algum fundamento. Ou se encontra o fundamento que leva ambas as partes à mesma conclusão ou o diálogo fica suspenso por falta de dados. Num diálogo racional não pode haver uma divergência irredutível acerca da existência de fadas, por exemplo, só porque uma das partes gostaria muito que elas existissem.

A isto alguns apontam que nunca podemos encontrar o fundamento último de todas as coisas, certezas absolutas acerca dos factos, podemos ser cérebros em jarros e assim por diante. Pode ser, mas é irrelevante. O fundamento do diálogo racional não precisa ser a explicação última para tudo. Basta premissas que ambas as partes julguem fundamentar a conclusão. Se alguém alegar que a Terra é redonda, aceito que é. Não por fé ou por ser dogma que dispense fundamento mas porque concordo que é uma alegação suficientemente fundamentada para servir como ponto de partida. Num diálogo racional é esse fundamento que procuramos, um bom ponto de partida para o raciocínio.

E saímos da racionalidade quando alguém, por exemplo, diz da transubstanciação da hóstia que «metafisicamente, tenho a certeza. Porquê? É um mistério da fé.» “Mistério da fé” não é uma razão aceitável nem relevante para se inferir que a hóstia se transubstanciou. Ainda menos ter certeza. Afinal, é mistério. Por isso a hipótese da hóstia se transubstanciar continua carente de fundamento. Por outro lado, a hipótese contrária fundamenta-se na constatação de que a hóstia ficou na mesma e no consenso de ser racional inferir de uma coisa que fica na mesma que não se tornou em algo que é tão diferente como Deus é da farinha.

É por isto que eu defendo serem infundadas muitas das alegações religiosas. Admito que o tal “mistério da fé” seja psicologicamente suficiente para convencer algumas pessoas de que devem rebentar com aviões e apedrejar raparigas, que a Terra só tem dez mil anos ou que o Ratzinger nunca falha. Mas num diálogo racional, “mistério da fé” não é fundamento nenhum. Num diálogo racional, o “mistério da fé” equivale a tombar o rei no Xadrez.

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