segunda-feira, agosto 09, 2010

O NEGRO E O VERMELHO

Observemos de início que para raciocinar com segurança sobre essa matéria como para qualquer outra, é conveniente, para começar, generalizar a questão. A Democracia não vê na questão romana senão Roma e o Papado: Roma, que ela cobiça para completar a unidade italiana; o Papado, do qual ela não tem menos inveja da autoridade espiritual que da temporal. É preciso encarar nesta questão de Roma e da Santa Sé todas as igrejas, todas as sinagogas, todas as seitas místicas, todos os cultos e todos os templos do universo, nas suas relações com o direito público e a moral das nações. Toda outra maneira de raciocinar sendo particular, é por isso mesmo parcial. Sob esta reserva, que estende a todas as crenças religiosas o que temos a dizer da Igreja romana, podemos abordar a questão papal.
A Igreja, independentemente do seu dogma, é mãe de toda a autoridade e unidade. É por essa unidade que ela se tornou, para assim dizer, a capital do misticismo. Nenhuma sociedade religiosa poderia, neste aspecto, ser¬lhe comparada. A sua divisa é: Um só Deus, uma só fé, um só baptismo: Unus Dominus, una fides, unum baptismam); – a sua máxima de governo, a excomunhão ou isolamento dos rebeldes: Que aquele que não ouve a Igreja seja olhado como pagão e publicanon): Qui non audierit Ecclesiam, sit vobis sicut et publicanuso). É da igreja que os imperadores e os reis têm a sua política de unidade e o seu prestígio; é do seu brilho que eles tomam por empréstimo a sua majestade. A República una e indivisível dos jacobi¬nos, o Dio e popolo p) de Mazzini não são igualmente senão plágios da sua doutrina. Também, fora das suas querelas, a democracia moderna é para a Igreja o que foram os imperadores desde Constantino e Carlos Magno, cheia de deferência e de submissão. Robespierre, no tempo das suas vin¬ganças, teve sempre um fraco pelos padres, e viu¬se, em 1848, com que pressa a República os recebeu no seu seio. Que a Igreja, de bonapartista ou legitimista, se declare amanhã democrata, ela não arrisca nada, e a reconciliação será rapidamente feita. Existe em Paris, desde 1830, uma fracção da democracia que olha a Revolução francesa como um corolário do Evangelho; se esse partido for lógico, deve considerar a democracia como sinónimo de Igreja. Em todos os países aonde se propagou, a Igreja possui pois, por prerrogativas anteriores, a força que a unidade comunica ao governo: é por isso que, nos séculos passados, em caso de desinteligência entre o espiritual e o temporal, se viu tantas vezes a Igreja retirar para si a autoridade temporal por inteiro, excomungar os príncipes, desligar os povos da jura de fidelidade, operar uma revolução no governo. Como na Idade Média, tais factos podem produzir¬se ainda, e talvez antes de poucas gerações o testemunharíamos, se, continuando a corrupção dos costumes o seu curso, caminhando a política cada vez mais pelo exagero da unidade e da autoridade ao despotismo, a Igreja ficasse só como autoridade moral e moderadora.
A federação, ao contrário, é liberdade por excelência, pluralismo, divisão, governo de si por si. A sua máxima é o DIREITO, não dado nunca pela Igreja, intérprete do céu, ou definido pelo príncipe, representante da Divindade e braço do Santo Padre; mas determinada pelo livre contrato. Neste sistema, a lei, o direito, a justiça são o estatuto arbitral das vonta¬des, estatuto superior por conseguinte a toda a autoridade e crença, a toda a Igreja e religião, a toda a unidade, pois que a autoridade e a fé, a religião e a Igreja, sendo exclusivamente da competência da consciência individual, colocam-se por isso mesmo abaixo do pacto, expressão do consentimento universal, a mais alta autoridade que existe entre os homens. Finalmente, na federação, sendo o princípio de autoridade subalternizado, a liberdade preponderante, a ordem política é uma hierarquia invertida na qual a maior parte de conselho, de acção, de riqueza e de poderio continuam nas mãos da multidão confederada, sem jamais passarem às de uma autoridade central.

m)Em latim, no original. (N.T.)
n)Cobrador de impostos na antiga Roma; rendeiro público. (N.T.)
o)Em latim, no original. (N.T.)
p)Em italiano, no original. Deus e Povo. (N.T.)

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